Senta aqui. Não no divã — o divã está ocupado por uma influencer que precisou do espaço para montar o tripé. Você já reparou como ultimamente as pessoas parecem ter perdido a capacidade de se colocar no lugar do outro? Não é impressão sua, não. É uma epidemia. Silenciosa não, o sem-noção adora um palco, e palco silencioso não tem graça.
Eu tenho pensado sobre isso. Aliás, tenho pensado sobre isso enquanto espero na fila do supermercado e alguém entra na minha frente como se eu fosse um elemento de decoração. Enquanto desvio de um tripé no corredor do shopping. Enquanto uma criatura, do outro lado do restaurante, decide que a refeição dos outros é o momento ideal para uma videochamada em viva-voz sobre assuntos que não interessam a ninguém exceto a ela: o que, aliás, é a premissa central da sua existência.
O que aconteceu com a gente?
I. O narcisismo em tempos de like
Freud, se vivo fosse, estaria se esfregando as mãos. Passou a vida falando sobre narcisismo e nunca imaginou que um dia ganharíamos um dispositivo capaz de devolver nossa própria imagem em tempo integral, 24 horas por dia, com filtro de pele, fundo musical e possibilidade de monetização. O sem-noção, não é mau. É míope. Sofre de uma grave miopia existencial: só enxerga o próprio umbigo e mesmo, se tiver boa iluminação e ângulo favorável.
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Lembra da moça do shopping? Tripé no meio do corredor. Dançando. Filmando. O mundo como cenário, as pessoas como figurantes atrapalhando sua arte. Aí veio um cachorro, daqueles de porte grande, que não assiste stories e não tem contrato com o algoritmo e tacou uma rabada no tripé. Foi tripé, foi celular, foi tudo pro chão. A moça foi brigar com a dona do cachorro.
O animal não estava errado. O animal estava sendo animal. Mas na cabeça da moça, o mundo real havia invadido seu set de filmagem, e isso é inaceitável.
Não é maldade. É uma grave confusão entre protagonismo e existência.
II. A atriz e o gozo alheio
Ah, a academia. Templo do corpo, altar da performance, lugar onde as pessoas vão sofrer e, se possível, ser admiradas enquanto sofrem. Mas aí chega ela.
Vamos chamá-la de Atriz: como os colegas de academia fizeram, com aquela crueldade afetiva que os grupos pequenos dominam tão bem. Uma jovem que, durante os exercícios, emite sons numa escala que vai do desconforto ao constrangimento clínico. Cinco quilos no bíceps. Gemendo. Muito. Tanto que o professor aumentou o volume da música para cobrir. Ela gemeu mais alto. É uma escalada sonora que ninguém vai vencer, porque ela não está numa competição, ela está numa performance.
E aqui mora o diagnóstico.
A academia é um espaço de exibição consentida. As pessoas vão para ser vistas — nos melhores ângulos, com o suor controlado, a expressão de quem sofre com dignidade. A Atriz levou esse princípio a outro patamar: não queria apenas ser vista. Queria ser sentida.
O gemido é a linguagem do gozo. Lacan falaria longamente sobre isso, e falaremos mais brevemente: ao gemer tão alto que a aula inteira para, ela diz “eu existo, eu sinto, eu sou mais real do que vocês que sofrem em silêncio e não aparecem em nenhuma timeline.”
Quando o noivo de Camila foi gentilmente alertá-la de que estava fazendo muito barulho, a resposta foi: “Você tá louco?”
Ali estava o diagnóstico completo. Ela não se ouvia. Ou ouvia e não se reconhecia como parte do problema. Porque na cabeça dela, o som que produzia era natural. O problema eram os outros, que não entendiam sua intensidade.
O pior? Quando Camila tentou conversar depois, a Atriz olhou para ela com a expressão de quem acabou de ser atacada por um desconhecido — e foi rir com a colega do lado. A lição do dia, disse Camila, é que algumas pessoas não querem ser ajudadas. Elas querem passar vergonha em paz.
E isso, convenhamos, é um direito que ninguém pode tirar de ninguém.
III. O cliente, o funcionário e a fantasia de realeza
Agora o hotel. Que é, talvez, o espaço onde a fantasia de realeza atinge seu pico histórico.
A hóspede que quer fazer check-in às dez da manhã porque “é uma diária, não meia diária”. A que quer levar as balas da decoração para casa, “pode colocar na minha conta”. O que quer pegar a bicicleta sem assinar nenhum termo, porque assinar termo é coisa de quem não paga bem. A que reclama da picanha com gosto de “animal vivo”. O que quer a espreguiçadeira na sombra, remove a decoração porque “estava me dando ansiedade” e sai andando como se tivesse feito um favor ao estabelecimento.
O que todos têm em comum?
Uma convicção inabalável: o funcionário não é uma pessoa com jornada de trabalho, talvez um filho doente em casa, talvez um segundo emprego à noite. O funcionário é um obstáculo entre eles e o desejo, e obstáculos se removem.
“Vou chamar seu gerente.” A frase mágica. Como se o gerente fosse um ser capaz de dobrar as leis do tempo, do espaço e da lógica para atender caprichos reais.
Porque é de capricho que se trata, não de necessidade. E no reino do eu quero, o outro é apenas um peão mal posicionado no tabuleiro.
O sem-noção que grita no balcão, aliás, tem quase sempre mais chances de conseguir o que quer. Desconto, atenção, resolução rápida: porque o funcionário aprende rápido que é mais fácil ceder do que travar uma batalha que não vai ganhar. O comportamento inconveniente funciona. Esse é o problema real: a falta de noção tem retorno sobre o investimento.
IV. O trabalho como extensão da sala de estar
No escritório, a fantasia se encontra com a realidade e, muitas vezes, perde — mas não sem antes causar danos colaterais.
Aquele colega que conta a vida no corredor como se estivesse num boteco de bairro. A que pergunta sobre seu salário, seu trauma de infância, seu voto na eleição. O que chega atrasado, fica no celular, não assume responsabilidade nenhuma e, quando recebe uma crítica, reage como se tivesse sofrido uma injustiça histórica.
Mas a cena da barriga merece análise separada.
O homem que, na copa da empresa, enquanto falava ao telefone, levantou a camiseta e ficou coçando a barriga. A barriga peluda. No meio do escritório. Com pessoas ao redor tentando trabalhar e conversar e manter algum resquício de foco numa tarde de segunda-feira.
O que ele dizia com aquele gesto? “Este lugar é minha casa. Este corpo é meu. Posso exibi-lo como quiser.” Ele havia perdido (ou nunca tido) a noção de que o escritório tem regras invisíveis que ninguém escreveu e todo mundo entende. Inclusive que barriga se coça em particular, preferencialmente numa cabine de banheiro com a porta fechada.
A colega que testemunhou foi sequestrada. Parou de ouvir a conversa que tinha, parou de pensar, parou de funcionar, porque o corpo do outro havia invadido seu campo de visão sem pedir licença e sem aviso prévio.
É exatamente isso que o sem-noção faz: sequestra a atenção alheia e se torna, à força, o centro da cena. Ele não precisa de convite. Ele simplesmente aparece.
V. A fila e o contrato social (que ninguém assinou mas todo mundo devia)
Rousseau, no século XVIII, falou do contrato social. Um acordo tácito entre cidadãos para que a vida em conjunto seja possível. A fila é a expressão máxima desse contrato: você espera, eu espero, todos esperamos, e a ordem se mantém. Aí chega alguém e fura.
“São só duas coisinhas.” “Tô com muita pressa.” “Só vou perguntar uma coisa.” E quando alguém reclama: “Relaxa, tá nervoso por quê?”
O furador de fila não está apenas furando uma fila. Está dizendo que o contrato não vale para ele. Que suas duas coisinhas têm mais peso que as compras dos outros. Que sua pressa é mais legítima que o tempo alheio. E, na inversão clássica do sem-noção, quem reclama é que vira o estressado, o mala, o problema. Ele é só uma pessoa comum. Com necessidades urgentes. Que o universo cruel insiste em atrasar.
VI. A cultura do protagonista — e o sumiço do outro
Chegamos ao cerne.
As redes sociais ensinaram algo perigoso: você é o protagonista. Sua vida é um filme. Seus seguidores são a plateia. E os outros? Os outros são coadjuvantes. Figurantes. Extras sem cachê e sem nome nos créditos.
O problema é que na vida real não tem roteiro. Os figurantes também acham que são protagonistas. E quando dois protagonistas se encontram, um querendo gravar no meio da calçada, outro querendo simplesmente passar: o conflito está armado e não há diretor para cortar. Rousseau imaginava um contrato. Freud imaginava o inconsciente. Lacan imaginava o gozo. Nenhum dos três imaginou o Instagram.
O sem-noção age em espaço público como se estivesse na própria sala — porque na cabeça dele, o mundo inteiro é uma extensão da sua sala. E quando alguém toca a campainha, ele estranha. Quem chamou? Não estava esperando visita.
VII. O que fazer com eles — resposta curta: nada
Não é desistência. É diagnóstico.
O sem-noção, na maioria das vezes, não quer ser curado. Não está buscando noção, limite ou educação. Está buscando o palco. A plateia. O gozo. E chamar a atenção raramente funciona: você vira o vilão da história dele, a pessoa que “não entende”, que “tá de frescura”, que “persegue”.
O conselho é o mais antigo e o mais difícil: desvie. Preserve a sua paz. Deixe a vida resolver e a vida resolve, sempre resolve, só que no ritmo dela, que é mais lento do que a gente gostaria, mas inevitável.
Uma hora o cachorro passa e derruba o celular. Uma hora o gerente aparece e não resolve nada. Uma hora a barriga peluda encontra alguém que devolve um olhar tão longo e tão constrangedor que a camiseta baixa sozinha, por instinto de sobrevivência social.
A vida tem dessas. É lenta, mas tem memória.
VIII. O bom senso — esse raro mineral
Conviver bem não exige genialidade. Não exige curso, não exige terapeuta, não exige coach de desenvolvimento humano com planilha de metas. Exige bom senso. Coisa simples: não fazer com os outros o que não gostaria que fizessem com você. Respeitar fila. Não tratar funcionário como obstáculo personalizado. Não gemer na academia como se estivesse filmando algo que os menores de dezoito anos não deveriam ver. Não levantar a camiseta no escritório.
Parece fácil. Não é. Porque exige, a cada instante, lembrar que o mundo não é seu quintal — e que existem outras pessoas circulando por aí, com pressa, com problemas, com vidas que não giram em torno da sua.
O sem-noção esqueceu disso. Ou nunca aprendeu. Ou aprendeu, esqueceu e virou um perfil com quarenta mil seguidores.
Resta a nós (pobres mortais que ainda tentamos), seguir educados, pacientes, respeitando os acordos invisíveis que mantêm a civilização de pé, mesmo que de forma precária.
Não por eles.
Por nós.
A única coisa que a gente controla é a própria postura no mundo.
E, convenhamos, já não é pouco.

