O tratamento do câncer de mama triplo-negativo, uma das formas mais agressivas da doença, pode, no futuro, contar com terapias-alvo que atuem sobre o RNA. É o que aponta um estudo conduzido pelo Instituto de Pesquisa Pelé Pequeno Príncipe, que identificou 28 moléculas com potencial para atuar como alvos terapêuticos. Os achados foram publicados no International Journal of Molecular Sciences e abrem caminho para estratégias mais direcionadas e personalizadas para tratar esses tumores durante o enfrentamento da doença.
Para chegar a esses resultados, a equipe analisou mais de 350 artigos disponíveis em bases de dados internacionais e selecionou 35 estudos, publicados entre 2020 e 2025, para avaliação aprofundada. Os trabalhos incluídos utilizaram modelos experimentais in vivo para investigar a ação de diferentes tipos de RNAs não codificantes – moléculas naturalmente presentes nas células e responsáveis por regular a expressão de genes – com potencial terapêutico contra o câncer de mama triplo-negativo. Esses RNAs foram examinados quanto à capacidade de modificar características importantes do tumor, tanto em uso isolado quanto em combinação com outras abordagens.
Ao todo, foram identificados 28 RNAs que podem ser modulados para suprimir o crescimento tumoral, inibir a formação de metástases e restaurar a sensibilidade a agentes quimioterápicos padrão. Segundo a autora do estudo, Luciane Cavalli, o achado é particularmente relevante porque a maioria dos casos dessa doença apresenta múltiplas alterações moleculares, o que dificulta a definição de alvos terapêuticos claros. “Por isso, além da cirurgia, o tratamento padrão costuma envolver terapias sistêmicas, como a quimioterapia citotóxica”, explica. “Embora seja eficaz, ela não age exclusivamente sobre as células tumorais, atingindo também células saudáveis e provocando diversos efeitos colaterais”, acrescenta.
Ao destacar os RNAs não codificantes como possíveis alvos terapêuticos, o estudo, publicado em fevereiro de 2026, aponta para o desenvolvimento de abordagens clínicas mais precisas. “A utilização de diferentes terapias-alvo, de acordo com as características moleculares únicas de cada paciente, pode gerar menos efeitos colaterais e otimizar a resposta ao tratamento”, afirma Cavalli, reforçando o potencial de personalização dessas estratégias.
De acordo com a pesquisadora, essas moléculas podem ser exploradas de formas distintas, dependendo do papel que desempenham no tumor. “Por exemplo, quando o RNA não codificante está presente em níveis elevados e favorece o crescimento tumoral, a resistência aos medicamentos ou a progressão da doença, uma das estratégias é bloquear sua ação dentro da célula”, explica. Para isso, podem ser desenvolvidas, em laboratório, moléculas capazes de “desligar” especificamente esse RNA, reduzindo seus efeitos pró-tumorais.
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Embora os estudos analisados ainda estejam em fase pré-clínica, ou seja, sem testes em pacientes, os resultados são considerados promissores. “Até que se tornem tratamentos disponíveis, essas estratégias precisam passar por diversas etapas de validação, incluindo a confirmação de eficácia e segurança, além da aprovação por órgãos regulatórios”, ressalta Cavalli. “A expectativa é que os RNAs com evidências mais robustas avancem para a avaliação clínica e, no futuro, contribuam para ampliar a sobrevida e as chances de cura das pacientes com esses tumores”, conclui.
Fonte: Agência Bori

