Uma simples amostra de saliva combinada com inteligência artificial e microchips pode mudar os rumos do tratamento oncológico no Brasil. Cientistas do Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM), em Campinas (SP), desenvolveram um biossensor inovador capaz de identificar sinais de metástase de câncer de boca em tempo real.
A pesquisa, que já soma oito anos de história, ganhou um impulso decisivo com a sua integração ao Programa Nacional de Inovação Radical em Saúde, uma iniciativa estratégica do Ministério da Saúde criada para acelerar a chegada de tecnologias de última geração ao Sistema Único de Saúde (SUS) e fortalecer a soberania nacional no setor.
Historicamente, o ciclo que separa o início de uma pesquisa laboratorial até a chegada de um novo medicamento ou dispositivo na prateleira pode ultrapassar uma década. O novo programa do Governo Federal foi desenhado justamente para cortar essa burocracia e encurtar caminhos.
A secretária de Ciência, Tecnologia e Inovação em Saúde, Fernanda De Negri, explica o foco da pasta.”A missão é fortalecer a inovação radical, com o desenvolvimento de novas moléculas, medicamentos e produtos de saúde de ponta para reduzir a dependência externa e garantir a soberania do SUS. O país possui alta capacidade científica, mas ainda apresenta baixa conversão de conhecimento em soluções práticas”, pontuou a secretária.
Para solucionar esse gargalo, o Governo do Brasil vai financiar a instalação de um laboratório inédito de pesquisa e desenvolvimento focado nas demandas da indústria farmacêutica nacional.
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Parcerias de peso e o chip da saúde
Com a entrada na esteira do programa, o projeto do biossensor saltou de uma amostragem inicial de 60 pacientes para quase 800 análises. Essa expansão foi viabilizada pela cooperação entre o CNPEM, o Hospital Sírio Libanês — que apoiará o acesso a pacientes e a validação clínica —, o Instituto Nacional de Câncer (Inca), a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e hospitais do Proadi-SUS. Antes da parceria, a acurácia do sensor era de 76%, e o objetivo agora é elevar drasticamente essa confiabilidade.
O funcionamento do biossensor impressiona pela praticidade e economia: do tamanho de um componente de smartphone, ele utiliza impulsos elétricos para detectar biomarcadores de câncer na saliva. O sistema digitaliza o resultado na hora, substituindo com eficácia equipamentos laboratoriais importados de grande porte que chegam a custar até US$ 1 milhão (cerca de R$ 5,5 milhões).
Além do câncer: o futuro da medicina no Brasil
O biossensor de câncer de boca é apenas o começo. Atualmente, o programa conduz quatro projetos-piloto no CNPEM voltados para o desenvolvimento de tratamentos e diagnósticos de:
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Dor crônica neuropática;
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Doenças neurodegenerativas;
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Doenças autoimunes.
Para se tornarem realidade na rede pública, os projetos passam por uma triagem rigorosa de viabilidade comercial e técnica, recebendo em seguida apoio financeiro e acesso à infraestrutura avançada do CNPEM. Isso inclui o uso do Sirius, a maior fonte de luz síncrotron da América Latina, capaz de analisar estruturas biológicas em nível atômico.
Ao contrário da inovação incremental (que faz apenas melhorias em remédios que já existem), a inovação radical rompe com o mercado tradicional ao introduzir inteligência artificial, terapias celulares avançadas e novas plataformas de vacinas para proteger a população de forma rápida e eficiente.

