O filósofo Byung-Chul Han observa que a sociedade contemporânea deixou de ser marcada apenas pela disciplina e passou a ser orientada pelo desempenho. Em outras palavras, a pressão para performar resultados e corresponder a expectativas parece ter invadido praticamente todas as dimensões da vida, inclusive a sexualidade.
Esse fenômeno ajuda a compreender por que tantos homens passaram a vivenciar a sexualidade menos como uma experiência de intimidade e mais como um teste permanente de desempenho.
Essa pressão também mudou o perfil de muitos pacientes que chegam aos consultórios de urologia: homens jovens, saudáveis do ponto de vista físico, mas que convivem com ansiedade, excesso de cobrança e medo constante de falhar na relação sexual.
Um documento de consenso publicado pela European Society for Sexual Medicine (ESSM), em 2025, destaca que a ansiedade de desempenho sexual está relacionada à avaliação constante da própria performance e ao receio das consequências de não corresponder às expectativas.
Da mesma forma, uma revisão publicada na revista científica Sexual Medicine Reviews estimou que a ansiedade de desempenho sexual afete entre 9% e 25% dos homens. Segundo os autores, ela figura entre os principais fatores associados à disfunção erétil de origem psicogênica e à ejaculação precoce, além de contribuir para a manutenção desses quadros.
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Quando a pornografia vira parâmetro para a vida real
A pornografia também pode contribuir para a ansiedade quando passa a funcionar como referência para a vida sexual. Embora faça parte da rotina de muitos adultos e, por si só, não represente necessariamente um problema, ela costuma retratar relações altamente performáticas, com ereções contínuas, longos períodos de penetração e respostas imediatas de prazer.
Quando esse tipo de representação passa a servir como parâmetro, alguns homens acreditam que precisam reproduzir o mesmo padrão nas relações reais.
Segundo o médico PhD em Urologia pela USP, Dr. Paulo Egydio, essa comparação favorece um ciclo de ansiedade de desempenho. Ao concentrar a atenção em manter a ereção ou corresponder a um ideal de performance, o homem deixa de vivenciar a relação de forma espontânea e passa a monitorar constantemente o próprio corpo.
Soma-se a isso o fato de que a sexualidade vivida na intimidade costuma ser muito diferente daquela apresentada nas produções pornográficas. Enquanto essas produções costumam privilegiar a performance e a penetração como centro da relação, a experiência sexual real envolve comunicação, intimidade, estímulos variados e tempos diferentes para cada pessoa. A distância entre expectativa e realidade pode gerar frustração e reforçar a sensação de inadequação.
A pressão não termina fora da cama
A esse cenário somam-se outras formas de comparação cada vez mais presentes no cotidiano. Redes sociais, aplicativos de relacionamento e padrões estéticos reforçam a comparação constante e fazem muitos homens avaliarem não apenas seu desempenho sexual, mas também o próprio corpo.
Tamanho do pênis, definição muscular e resistência física tornam-se, para alguns, parâmetros de sucesso, alimentando uma autocrítica constante.
Na prática, a cobrança transforma a relação sexual em um momento de avaliação permanente. Em vez de estar presente na experiência, o homem passa a monitorar se a ereção está suficiente, se conseguirá manter o desempenho esperado ou se será capaz de satisfazer a parceira. O prazer cede espaço ao medo de falhar.
Segundo o Dr. Paulo Egydio, esse estado de vigilância interfere diretamente na resposta natural do organismo.
“A ansiedade ativa um mecanismo fisiológico de defesa conhecido como resposta de luta ou fuga. Nessa situação, há aumento da liberação de adrenalina, que provoca a contração dos vasos sanguíneos. Como a ereção depende de um fluxo adequado de sangue para o pênis, esse processo pode dificultar ou impedir que ela aconteça normalmente”, explica.
O especialista ressalta que essa dificuldade nem sempre indica um problema físico permanente, mas pode ativar uma espécie de bloqueio mental. “Após um episódio de falha, muitos homens passam a antecipar que a situação voltará a acontecer. Essa preocupação aumenta ainda mais a ansiedade antes da relação e cria um ciclo em que o medo da falha acaba favorecendo uma nova dificuldade de ereção”, afirma.
Quando o padrão se repete, alguns homens passam a evitar relações sexuais por receio de reviver a experiência, o que pode comprometer a autoestima, aumentar a insegurança e gerar impactos também nos relacionamentos afetivos.
A medicalização da performance sexual
Esse conjunto de fatores ajuda a compreender outro fenômeno recente: o aumento do uso de medicamentos para disfunção erétil entre homens jovens, mesmo sem indicação clínica. Se antes esses medicamentos eram associados principalmente a homens mais velhos, hoje muitos jovens recorrem a eles não por apresentarem alterações fisiológicas, mas pelo desejo de eliminar qualquer possibilidade de falha.
Um estudo publicado em 2026 na revista científica Asklepion: Informação em Saúde descreve esse comportamento como uma “medicalização da performance sexual”, em que homens de 18 a 30 anos recorrem a estimulantes sexuais, como a tadalafila, em busca de mais segurança, confiança ou desempenho, mesmo sem apresentar alterações fisiológicas que justifiquem o tratamento.
Os autores alertam que essa prática é influenciada por fluxos de desinformação e pela crescente pressão para corresponder a expectativas de performance sexual.
Para o Dr. Paulo Egydio, medicamentos para disfunção erétil têm eficácia comprovada e desempenham um papel importante quando existe uma indicação médica. No entanto, quando homens saudáveis passam a utilizá-los apenas para reduzir o medo de falhar, é importante investigar se a principal dificuldade está na função erétil ou na ansiedade em torno do próprio desempenho.
“O medicamento pode tratar uma dificuldade física quando ela existe, mas não elimina a origem emocional da ansiedade de desempenho”, alerta.
Se, como observa Byung-Chul Han, vivemos em uma sociedade orientada pelo desempenho, talvez um dos maiores desafios da intimidade hoje seja justamente escapar dessa lógica. Afinal, a sexualidade não é uma prova a ser superada, mas uma experiência de intimidade, conexão e prazer.

