Renato Meirelles passou vinte e cinco anos metido em pesquisa sobre classe C, D e E. Mais de mil pesquisas. Então, quando ele fala do assunto, convém prestar atenção.
Uma das conclusões de Brasil da Maioria deveria, aliás, ficar grudada na geladeira de muito marqueteiro político: o eleitor da classe C não é necessariamente de esquerda, nem de direita. É pragmático. Ou, para falar sem palavra bonita: quer saber se funciona.
Pouco importa se o Estado é grande, pequeno, gordo ou magro. Os eleitores querem saber se conseguem atendimento no posto de saúde, se encontram vaga na escola do filho, se o ônibus chega inteiro ao destino e se, depois de pagar as contas, sobra alguma coisa. Parece óbvio. Mas, no Brasil, o óbvio costuma precisar de pesquisa para ser descoberto.
A classe C que Meirelles descreve não é uma invenção de planilha. É gente que mudou de vida. Gente que, durante um período, conseguiu comprar algumas coisas que antes pareciam distantes. No começo dos anos 2000, representava cerca de 39% da população. Uma década depois, já era metade do país. E tem uma coisa interessante aí.
As crises vieram. 2015, 2020, 2023. A vida apertou, muita gente perdeu renda, negócio fechou, emprego sumiu. Ainda assim, essa parcela não simplesmente voltou para o lugar de onde tinha saído. E isto traduz que ninguém esquece tão facilmente o gosto de ter conseguido subir um degrau. Quem já esteve lá embaixo sabe o tamanho do medo de voltar.
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E o que acontece depois?
A pessoa quer dinheiro, evidentemente. Seria bonito dizer o contrário, mas não seria verdade. Só que não é apenas dinheiro. É autonomia. É poder decidir alguma coisa da própria vida. É chegar em casa e não sentir que passou o dia inteiro trabalhando para outra pessoa decidir por você. Por isso o empreendedorismo tenha crescido tanto. Não necessariamente porque todo mundo sonha em ser empresário. Às vezes é só porque a pessoa cansou de esperar uma oportunidade aparecer.
A carteira assinada continua tendo seu valor. Claro que tem. Segurança, férias, décimo terceiro, aposentadoria. Só que já não existe aquela ideia de que existe um único caminho certo. Os eleitores querem ser empregados e, ao mesmo tempo, fazer um bico. Podem querer abrir um negócio e, ao mesmo tempo, morrer de medo de ficar sem aposentadoria. Podem querer liberdade e segurança. Aliás, quase todo mundo quer coisas que não combinam perfeitamente. A gente passa a vida tentando colocar tudo dentro do mesmo bolso. Quando não cabe, dá um jeito.
Isso não é incoerência. É a vida.
Enquanto isso, nós, os analistas, cientistas políticos, marqueteiros e jornalistas de plantão, adoramos uma classificação. Esquerda. Direita. Centro. Progressista. Conservador. Governo. Oposição. É um ótimo negócio para quem precisa escrever uma análise. Para quem está tentando pagar a prestação do carro, nem sempre.
O sujeito da classe C está mais preocupado com a mensalidade da escola, com o delivery que precisa continuar funcionando, com o aluguel, com o preço da carne e com aquela sensação desagradável de chegar ao supermercado e descobrir que alguma coisa subiu de novo.
Ele pode até ter opinião política. Claro que tem. Mas não necessariamente organiza a vida a partir dela. Quer saber uma coisa bem mais simples:
Isso melhorou minha vida? Se melhorou, ele percebe. Se piorou, também. E não precisa de doutorado em ciência política para fazer essa conta. É aí que muita análise política se perde. Porque gosta de transformar gente em categoria. Só que ninguém acorda de manhã pensando: “Hoje vou exercer minha identidade ideológica de classe C.”
A pessoa acorda pensando no trabalho. No filho. Na conta. No ônibus. Na próxima parcela.
É por isso que talvez o eleitor seja menos ideológico do que os analistas gostariam. Não porque não tenha convicções, mas porque a vida real não respeita muito as nossas caixinhas. A política chega para ele de um jeito bastante concreto. É o posto que atende ou não atende. É a escola que consegue matricular ou não. É o emprego que aparece. É o dinheiro que sobra. E quando sobra, ele sabe muito bem o que fazer com ele. Não precisa explicar muito.
Ele vive ali.

