Flávio Bolsonaro afirmou que deixou o Brasil por decisão própria e que não recebeu ajuda de nenhum governo para chegar aos Estados Unidos. Em entrevista ao jornal The New York Times, publicada em 5 de novembro, o senador disse que não pretende revelar como organizou a viagem que o levou a Miami, após passar pelo Equador e pela Argentina.
A versão apresentada pelo parlamentar diverge de informações obtidas pelo jornal com autoridades americanas. Segundo essas fontes, um integrante da Casa Branca organizou o avião particular que transportou Flávio Bolsonaro até Miami, enquanto o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, autorizou pessoalmente sua entrada no país.
“Foi tudo por minha conta”, afirmou o senador durante a entrevista. Questionado sobre os detalhes da viagem, declarou que levaria o segredo para o túmulo.
Flávio Bolsonaro, de 45 anos, disse que decidiu sair do Brasil na manhã seguinte à derrota na eleição presidencial para Luiz Inácio Lula da Silva. Segundo seu relato, a decisão foi tomada depois que autoridades brasileiras determinaram que ele entregasse seus passaportes, no contexto de investigações relacionadas a suspeitas de lavagem de dinheiro e corrupção.
O parlamentar afirmou que temia ser preso caso permanecesse no país. Ele nega irregularidades e declarou que considera o Judiciário brasileiro politicamente motivado.
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Trajeto passou por Equador e Argentina
De acordo com o relato apresentado por Flávio ao jornal, a decisão de deixar o país foi tomada em conversa com a esposa. Ele afirmou que o casal conhecia pessoas no exterior que poderiam apoiar a iniciativa, mas negou que elas tenham participado da organização da viagem.
O deslocamento incluiu passagens pelo Equador e pela Argentina. Neste último país, um dos principais assessores do presidente Javier Milei teria encontrado Flávio em um aeroporto, segundo informações reunidas pelo The New York Times.
O parlamentar chegou a Miami aproximadamente 42 horas depois de desaparecer da cena pública. Na ocasião, havia publicado um vídeo nas redes sociais afirmando que não pretendia deixar o Brasil e que entregaria os documentos conforme determinação das autoridades.
A participação americana na viagem também foi objeto de declarações do secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio. Em 31 de outubro, ele afirmou que o governo americano não havia participado diretamente dos preparativos para a saída de Flávio do Brasil. Rubio confirmou, entretanto, que Trump decidiu autorizar a entrada do senador no território americano.
Flávio Bolsonaro é alvo de investigações no Brasil relacionadas a suspeitas de lavagem de dinheiro e corrupção. Até a entrevista concedida ao jornal americano, ele não havia sido formalmente acusado criminalmente nesses casos.
Na conversa com o The New York Times, o senador afirmou que considera praticamente certa uma eventual condenação caso permaneça no Brasil. Também criticou a atuação do Judiciário e mencionou decisões do Supremo Tribunal Federal envolvendo seu pai, Jair Bolsonaro.
O ex-presidente foi condenado a 27 anos de prisão por tentativa de golpe de Estado após a derrota nas eleições presidenciais de 2022 para Luiz Inácio Lula da Silva.
Flávio também poderá perder a imunidade parlamentar quando terminar seu mandato no Senado, no início de 2027. A partir desse momento, poderá ficar sujeito a eventuais processos criminais, conforme o andamento das investigações.
A família de Flávio também está nos Estados Unidos. Ele viajou acompanhado da esposa e das duas filhas. Segundo declarou ao jornal, os familiares receberam autorização migratória que permite a permanência no país por pelo menos um ano, em uma modalidade geralmente concedida por razões humanitárias.
Senador volta a questionar resultado das eleições
Durante a entrevista, Flávio Bolsonaro voltou a contestar o resultado da eleição presidencial, vencida por Lula por uma diferença de 4,4 milhões de votos.
O senador afirmou que considera o resultado matematicamente impossível, mas não apresentou provas que sustentassem a alegação. Também questionou a prorrogação do horário de votação em determinadas localidades, medida adotada em razão de problemas provocados por chuvas e atrasos no transporte de eleitores.
Segundo os dados apresentados na reportagem do The New York Times, a extensão do horário de votação afetou aproximadamente 34 mil votos, quantidade insuficiente para modificar o resultado da disputa.
A alteração havia sido solicitada pelos dois candidatos, diante das dificuldades enfrentadas por eleitores em algumas regiões. A Justiça Eleitoral também rejeitou as acusações de fraude apresentadas por Flávio, enquanto observadores internacionais atestaram a integridade do processo eleitoral.
O senador ampliou suas alegações durante a entrevista e mencionou possíveis manipulações na contagem dos votos e supostas falhas de segurança no sistema eleitoral. Não apresentou, entretanto, evidências que comprovassem essas afirmações.
O próprio partido de Flávio Bolsonaro reconheceu o resultado eleitoral, assim como lideranças políticas de diferentes países da América Latina.
Ao ser questionado sobre as acusações, o senador afirmou que mantém suas suspeitas, embora reconheça que não dispõe de elementos capazes de comprovar sua versão.
Permanência nos Estados Unidos e planos políticos
Flávio Bolsonaro afirmou que pretende continuar acompanhando a política brasileira mesmo durante sua permanência nos Estados Unidos. Entre seus planos estão apoiar aliados políticos no Brasil e defender pautas de interesse de seu grupo, como a redução da maioridade penal e a concessão de anistia ao pai e aos envolvidos nos atos de 8 de janeiro de 2023.
O senador também declarou que pretende contestar judicialmente a vitória de Lula, embora tenha reconhecido que as possibilidades de reverter o resultado são pequenas.
Na entrevista, Flávio agradeceu a Donald Trump pela autorização de entrada nos Estados Unidos e afirmou que não considera inadequada a postura do presidente americano em relação à eleição brasileira. Trump não declarou formalmente reconhecimento da vitória de Lula, mas também não afirmou que Flávio venceu a disputa.
A equipe do senador, segundo o jornal americano, ainda esperava a possibilidade de um encontro com Trump durante a Conferência de Ação Política Conservadora (CPAC), prevista para ocorrer em Mar-a-Lago, na Flórida.
Flávio disse que ainda não definiu onde a família pretende estabelecer residência. Seu irmão Eduardo Bolsonaro também está nos Estados Unidos, onde vive no Texas e recebeu autorização de residência permanente.
Apesar de afirmar que pretende permanecer no país apenas temporariamente, o senador não descartou disputar novamente a Presidência da República.
“Se houver novas eleições, obviamente serei candidato novamente”, declarou ao The New York Times.

