O plenário do Supremo Tribunal Federal analisa nesta terça-feira (15) um relatório da Polícia Federal que reúne informações obtidas durante a investigação envolvendo o Banco Master e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro. O documento inclui mensagens atribuídas a Vorcaro e destinadas ao ministro Alexandre de Moraes, além de informações sobre contratos e outros registros relacionados ao caso.
A situação levou o STF a analisar uma questão envolvendo um de seus próprios integrantes. O procedimento também colocou em discussão a atuação do ministro André Mendonça, responsável pela condução de parte da investigação no Supremo.A sessão foi aberta pelo presidente da Corte, Edson Fachin, que afirmou que os ministros são seres humanos e podem errar.
Como o relatório foi produzido
Segundo o material analisado, o relatório da Polícia Federal teve origem em uma determinação de André Mendonça para identificar integrantes de uma suposta “rede de influência e monitoramento” relacionada a Daniel Vorcaro. A medida ocorreu durante a investigação do caso Master. A partir de informações encontradas no celular de Vorcaro, a PF identificou registros relacionados a diferentes autoridades, entre elas Alexandre de Moraes.
A Procuradoria-Geral da República questionou a forma como o relatório foi produzido. Segundo a manifestação apresentada no caso, Mendonça não poderia ter permitido que uma investigação alcançasse um ministro do STF sem comunicação prévia à Presidência da Corte ou ao plenário. A discussão envolve a interpretação das regras aplicáveis a investigações que possam atingir integrantes do próprio Supremo.
As 52 mensagens
Um dos principais pontos do relatório são 52 registros atribuídos a Daniel Vorcaro e relacionados a Alexandre de Moraes. De acordo com o documento, apenas cinco desses registros foram localizados diretamente como mensagens armazenadas no WhatsApp. Os outros 47 foram reconstruídos pela Polícia Federal a partir de vestígios digitais encontrados no aparelho de Vorcaro. A PF afirma ter cruzado informações como registros de captura de tela, horários de utilização de aplicativos, dados de envio e informações da agenda do celular.
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Um dos episódios citados no relatório ocorreu em 30 de outubro de 2025. Segundo os investigadores, Vorcaro fez uma captura de tela às 16h32min31s. Cinco segundos depois, abriu o WhatsApp e, posteriormente, houve registro de envio de uma mensagem para um contato identificado como “Alexandre de Moraes BRASILIA”.
A defesa de Moraes contesta a metodologia. O ministro afirma que a maior parte dos registros é resultado de reconstruções e sustenta que não é possível assegurar, apenas com esses elementos, que o texto capturado tenha sido exatamente o conteúdo enviado ao destinatário. A Polícia Federal, por sua vez, considera que os registros digitais permitem reconstruir a sequência dos acontecimentos, mesmo quando o conteúdo original da mensagem não está mais armazenado no aparelho.
O conteúdo das mensagens
Entre os registros apresentados no relatório estão mensagens nas quais Vorcaro demonstra proximidade e gratidão em relação a Moraes. Em uma delas, enviada em novembro de 2025, Vorcaro afirma ter uma “dívida de vida” com o ministro e sua família. Em outra, pergunta se deveria estar fora na segunda-feira e questiona se seria possível “fazer algo”.
Pouco antes de ser preso no Aeroporto Internacional de Guarulhos, Vorcaro teria enviado outra mensagem na qual afirma estar “online”. O relatório, conforme o material analisado, não apresenta respostas de Moraes às mensagens. Os registros encontrados são mensagens atribuídas a Vorcaro. Por isso, o conteúdo apresentado no documento demonstra as mensagens enviadas pelo empresário, mas não permite, isoladamente, concluir que Moraes tenha respondido, fornecido informações ou tomado alguma medida para beneficiá-lo.
Contrato de R$ 131 milhões
Outro ponto mencionado no relatório é um contrato de aproximadamente R$ 131 milhões entre o Banco Master e o escritório de advocacia de Viviane Barci de Moraes, esposa de Alexandre de Moraes. Segundo o material, registros digitais indicariam que Moraes participou da análise de versões do documento. O escritório afirma que o ministro foi consultado apenas para verificar a existência de eventual impedimento jurídico relacionado ao contrato.
O material também menciona um segundo contrato, no valor de aproximadamente R$ 50 milhões, envolvendo uma empresa ligada a Vorcaro. O pagamento teria sido discutido mediante a entrega de participações relacionadas a um avião e um helicóptero.
A existência desses contratos é apresentada no relatório como parte do contexto das relações analisadas pela investigação. Os documentos, isoladamente, não estabelecem a ocorrência de crime ou de troca de favores.
Moraes acusa Mendonça de vingança
Em sua manifestação, Alexandre de Moraes também questionou a atuação de André Mendonça. O ministro afirma que a investigação teria sido conduzida por vingança e por uma suposta motivação político-eleitoral. Moraes contesta a validade do relatório e afirma que as acusações contra ele não possuem fundamento. Mendonça apresentou outra versão.
Segundo sua manifestação, sua atuação ocorreu por cautela e para preservar o sigilo da investigação. O ministro afirma que não tinha como objetivo investigar Alexandre de Moraes, mas acompanhar informações surgidas durante a apuração do caso Master.
A divergência entre os dois ministros passou a integrar a discussão submetida ao plenário.
O que está em discussão no STF
A análise do caso envolve diferentes questões. Uma delas é saber se o procedimento adotado por André Mendonça para determinar as diligências da Polícia Federal foi adequado diante da possibilidade de a investigação atingir outro ministro do Supremo.
Outra questão diz respeito à validade e ao alcance dos registros digitais apresentados pela PF, especialmente os 47 registros reconstruídos a partir de vestígios encontrados no celular de Vorcaro. Também estão sendo analisadas as informações sobre os contratos e as relações mencionadas no relatório. O material não estabelece, por si só, que Alexandre de Moraes tenha cometido crime. Também não estabelece que André Mendonça tenha conduzido a investigação por vingança. Essas são posições apresentadas pelas partes e que fazem parte da controvérsia analisada pelo Supremo.
A discussão coloca ainda uma questão institucional: qual deve ser o procedimento adotado quando uma investigação conduzida por um ministro do STF produz elementos relacionados a outro integrante da própria Corte. O resultado da análise poderá definir a validade do relatório e os próximos passos do caso. Independentemente da decisão, permanecem em discussão questões relacionadas ao procedimento de investigação, à utilização de evidências digitais e aos limites da atuação de ministros em processos que possam envolver outros integrantes do tribunal.

