Colunas e BlogsMonólogo ao Pé do Ouvido

Monólogo ao Pé do Ouvido

Tem gente que fala porque tem alguma coisa para dizer. Tem gente que fala porque não quer ouvir o que está pensando. E tem gente que fala porque, se parar, não sabe muito bem o que pode acontecer.

Chico Science chamou uma de suas músicas de Monólogo ao pé do ouvido. Gosto desse título. Tem uma intimidade meio suspeita nele. Falar perto do ouvido é diferente de falar para uma sala. É quase um segredo. Ou uma tentativa de segredo. O problema começa quando o ouvido é o próprio. Aí a conversa pode ficar comprida.

Logorreia é o nome feio para uma coisa ainda mais feia: falar sem conseguir parar. A palavra vem do grego e significa, mais ou menos, fluxo de palavras. Parece nome de rio. Só que rio pelo menos chega a algum lugar.

Tem gente que começa contando que perdeu o ônibus e termina falando do pai, da infância, do preço da carne e de um sujeito que conheceu em 1998. No meio disso, interrompe quem tenta falar. Volta para uma história antiga. Esquece o que estava contando. Lembra outra coisa. E continua.

Mas também é preciso não sair diagnosticando todo mundo que fala demais. O mundo já tem psiquiatra demais por metro quadrado e pouca paciência para gente chata. O tagarela existe.

É o sujeito do churrasco. A pessoa do elevador. O parente que pega você no canto da festa e resolve contar a história inteira do casamento. Fala porque gosta. Ou porque está sozinho. Ou porque descobriu que, enquanto fala, ninguém vai embora. Isso pode ser só jeito.

A logorreia é outra história. Quando existe um quadro clínico, a fala escapa do controle. Pode aparecer em episódios de mania e em outros problemas psiquiátricos ou neurológicos. Às vezes o pensamento parece correr junto. Às vezes corre na frente. E nem sempre a culpa é da cabeça.

A tireoide, por exemplo, pode acelerar o sujeito inteiro. O coração, o corpo, a ansiedade. A boca acompanha.É uma espécie de derrota para quem gosta de explicar tudo pela alma. Às vezes era a tireoide. No consultório, o silêncio me interessa mais.

Não porque silêncio seja bonito. Essa mania de achar beleza em tudo também cansa. O silêncio é apenas um lugar onde a pessoa não consegue colocar outra frase por cima da anterior. Tive um paciente que falava muito do pai.Muito mesmo.

Become a Medium member

Toda sessão aparecia uma história. Depois outra. A mesma história voltava com outro detalhe. Quando parecia que finalmente chegaria a alguma coisa, ele mudava de assunto. Um dia perguntei:

“Você consegue ficar um minuto sem falar?” Ele ficou quieto. Olhou para mim. Foi só isso.

Mas aquele minuto pareceu maior que os cinquenta anteriores.Depois ele disse que odiava ficar em silêncio. Não perguntei por quê.

Às vezes perguntar estraga a resposta. A gente costuma imaginar que quem fala muito está cheio de coisas para dizer. Nem sempre.

Há quem fale justamente para não dizer. É uma diferença pequena na frase e enorme na vida. Falar pode ser uma forma de se aproximar. Também pode ser uma maneira bastante eficiente de manter todo mundo do lado de fora. A pessoa conta a infância inteira, mas não chega à infância. Conta o casamento, mas não fala do casamento. Conta o que o outro fez. Conta o que o outro disse. Conta o que acha que o outro pensa.

E ela? Ela continua falando.

E isto faz com que pessoas não suportem uma conversa que termina. Enquanto houver assunto, existe uma saída. O silêncio não oferece saída nenhuma. Ele deixa a pessoa consigo mesma.E isso, para alguns, é companhia demais.

Chico Science sabia que um monólogo podia estar cheio de vozes. A música dele nunca pareceu interessada em separar muito bem uma coisa da outra. Rua, política, memória, Recife, revolta, invenção. Tudo entrava. A cabeça humana também funciona assim. Uma coisa puxa outra.

Uma lembrança chama outra. Uma palavra abre uma porta que ninguém pretendia abrir. E, de repente, o sujeito está falando do pai quando tinha começado falando do ônibus. Talvez seja aí que a fala fique interessante.

Quando perde o caminho.

Porque o que a pessoa queria dizer nem sempre é aquilo que ela diz. Às vezes está escondido numa palavra atravessada. Às vezes numa repetição. Às vezes naquele silêncio que aparece por dois segundos e logo é coberto por outra frase.

A boca corre. O sujeito corre atrás. E o inconsciente, que não tem pressa nenhuma, fica sentado esperando. O problema da fala compulsiva não seja falar demais.

É não conseguir descobrir o que aconteceria se parasse.

Últimas