CulturaO repórter não é herói

O repórter não é herói

Uma leitura de Vida de gado, de Tom Cardoso.

Há profissões em que o sujeito trabalha para viver. No jornalismo, às vezes trabalha para descobrir como os outros vivem — e termina sem tempo para viver a própria vida.
Vida de gado — Trinta anos pastando no jornalismo, de Tom Cardoso, é um livro sobre essa nobre atividade de correr atrás da notícia enquanto a notícia corre atrás de outra pessoa.
Trinta anos de profissão dão ao jornalista duas coisas: experiência e provas contra si mesmo.
O título é excelente. Jornalista é um animal curioso: passa o dia procurando a verdade e, à noite, precisa entregá-la em determinado número de caracteres, dentro de um prazo e sem ofender demais o anunciante. Se encontrar a verdade inteira, pior: não cabe na página.
Cardoso reúne histórias de 63 personalidades. David Bowie, Maradona, Caetano, Roberto Carlos, Ney Matogrosso, Eike Batista, Vampeta e outros seres humanos que, depois de aparecerem muitas vezes na televisão, passaram a ser chamados de personalidades.
Mas o livro não é exatamente sobre eles. É sobre o homem que foi encontrá-los. Toda entrevista tem dois entrevistados: aquele que responde e aquele que pergunta. Às vezes, o segundo é mais interessante. Principalmente quando faz a pergunta errada e depois precisa escrever como se tivesse sido de propósito.
O grande mérito de Cardoso é não se apresentar como herói. Herói de jornalismo só existe em filme americano, geralmente com barba de três dias, olhar grave e uma fonte que entrega documentos no último minuto. Na redação real, o repórter erra, corre, insiste, perde o telefone, chega atrasado, desconfia tarde e publica cedo demais.
Isso aproxima o livro do jornalismo gonzo, essa modalidade em que o repórter admite que estava presente  e que sua presença talvez tenha piorado a situação. A velha neutralidade jornalística sempre foi uma espécie de ficção administrativa: o jornalista não é uma câmera. É uma pessoa com sono, opinião, vaidade, pressa e conta para pagar.
A subjetividade, porém, não é automaticamente uma virtude. Dizer “eu estava lá” não prova que foi assim. Prova apenas que alguém estava lá  e muitos anos depois, se lembrou da cena de uma maneira literariamente conveniente.
A memória é uma excelente repórter: apura pouco, edita muito e nunca revela suas fontes.
Esse é um dos pontos mais delicados do livro. Ao reconstruir episódios antigos, Cardoso trabalha numa fronteira entre documento e lembrança, fato e narrativa. Não é preciso acusá-lo de inventar. Basta reconhecer que toda memória já chega ao papel com maquiagem.
O jornalismo sabe disso quando entrevista os outros. Às vezes esquece quando entrevista a si mesmo.
Há humor no livro, e o humor é bem-vindo. Jornalista que não ri dos próprios erros acaba atribuindo-os à linha editorial. Mas é preciso desconfiar da transformação do sofrimento em folclore. Prazo impossível, falta de recursos, pressão e precariedade rendem bons causos — até o momento em que alguém precisa pagar o aluguel. A redação adora chamar exploração de “experiência”. É uma palavra bonita, principalmente quando vem sem salário.
Cardoso parece compreender que o jornalismo não é um sacerdócio. Ainda bem. Sacerdotes têm dogmas; jornalistas têm fechamento. O problema é que, ao retirar a aura sagrada da profissão, não se deve retirar também sua responsabilidade. Jornalismo é trabalho, mas é um trabalho que mexe com a vida alheia. Uma informação mal apurada não é apenas um tropeço do repórter: pode ser o tombo de outra pessoa.
Entre uma celebridade e outra, o livro também revela uma hierarquia. Famosos são bons personagens porque já chegam com iluminação própria. O desconhecido, esse pobre-diabo sem assessoria, precisa ser muito mais interessante para conseguir dois minutos de atenção.
O jornalismo gosta de dizer que procura histórias. Na prática, muitas vezes procura nomes.
A seleção das personalidades torna a leitura atraente, mas também mostra o limite de toda memória profissional: ela não registra o cotidiano; registra o que sobreviveu à rotina.
Ninguém escreve vinte páginas sobre a fonte que atendeu pontualmente, respondeu tudo e não criou problema. A normalidade é a grande derrotada da literatura. O jornalista também vira personagem. E aqui surge uma suspeita: talvez o anti-herói seja apenas um herói que aprendeu a se autodepreciar. “Vejam como sou falível”, diz o narrador. E o leitor responde: “Sim, mas que falibilidade interessante.” A confissão de fraqueza aproxima o público, mas continua sendo uma forma de construção de imagem. Até o constrangimento pode ser uma marca pessoal quando publicado com boa edição.
São 63 personalidades, mas é sobre uma 64ª: o próprio jornalista. O homem que envelheceu enquanto as celebridades mudavam, os jornais encolhiam, as redações desapareciam e a tecnologia prometia facilitar tudo: promessa que a tecnologia, como todas as promessas, fez questão de não cumprir. O repórter continua tentando fazer a pergunta certa. A diferença é que agora precisa também gravar, editar, publicar, divulgar, responder aos comentários e descobrir por que o algoritmo decidiu que sua matéria não existiu.
A vida de gado mudou de pasto. Antes, o jornalista corria atrás do fechamento. Hoje, corre atrás do alcance. Antes, havia um editor dizendo “corte”. Hoje, há uma métrica dizendo “ninguém viu”. Antes, o dono do rebanho tinha nome. Hoje, atende por algoritmo.
O livro é valioso porque humaniza o jornalismo. Mas humanizar não significa absolver. O repórter pode ser trabalhador, pode errar, pode se divertir e pode aprender apanhando. Só não deve transformar cada pancada em medalha.
Vida de gado parece ser um livro sobre as aventuras de quem passou trinta anos tentando arrancar alguma verdade do mundo. Seu melhor achado é mostrar que o jornalista não é herói, mártir nem gênio incompreendido. É um sujeito que precisa entregar a matéria antes do fechamento.
No jornalismo, como na pecuária, o animal precisa ser alimentado. A diferença é que o gado sabe quando está no pasto. O jornalista ainda chama isso de liberdade.
Um livro de memórias saboroso, irônico e humano: com a quantidade adequada de celebridades, fracassos e capim.

Ficha técnica:

Título: Vida de gado — Trinta anos pastando no jornalismo
Link:https://www.editoraruadosabao.com.br/literatura-brasileira/vida-de-gado-trinta-anos-pastando-no-jornalismo
Autor: Tom Cardoso
Editora: Rua do Sabão
Páginas: 172
ISBN: 978-6552450944

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