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A prata que virou taça

Como um país que nasceu de mãos espanholas aprendeu a repetir, dentro de casa, a mesma história que jurou nunca mais viver.

Hoje, dia 19 de julho de 2026, quatro da tarde, horário de Brasília. Espanha e Argentina entram em campo no MetLife Stadium, nos Estados Unidos, para decidir a Copa do Mundo. É a primeira vez, em mais de vinte edições do torneio, que essas duas seleções se enfrentam numa final. Parece coisa do acaso. Não é. É a Espanha jogando contra o espelho que ela mesma pendurou do outro lado do oceano, há quinhentos anos.

Vamos com calma, começando pelo nome do país. Argentina quer dizer “prata” em latim. O nome vem do Rio da Prata, ali entre Argentina e Uruguai. E o mais engraçado é que não tinha prata nenhuma naquele rio. Os espanhóis que chegaram lá no século 16 acharam que ia ter, ou quiseram acreditar que ia teria, e o nome ficou. Um país inteiro batizado com base num engano. A Espanha foi atrás de metal precioso e ficou séculos mandando naquela terra, cobrando o que dava para cobrar, levando o que dava para levar.

Isso é colonização, no seu modo mais bruto: um país forte chega, toma conta de um país mais fraco, tira dali o que interessa e trata quem já morava lá como se fosse peça do cenário. Foi assim com a Argentina, com o Brasil, com quase toda a América.

Depois veio a independência, em 1816. E é aqui que a história fica mais interessante, porque é quando o povo que foi colonizado resolve copiar o colonizador, achando que assim vai deixar de ser um povo “atrasado”. No caso da Argentina, os grupos que ficaram no poder depois da independência olharam para o próprio país e não gostaram do que viram. Tinha gente demais que não era europeia, na visão deles.

A solução foi trazer milhões de imigrantes da Itália, da Espanha, da Alemanha, para deixar o país “mais parecido com a Europa”. E para caber gente nova, era preciso primeiro tirar quem já estava lá.

Entre 1878 e 1885, o governo argentino fez o que chamou de “Conquista do Deserto”. A palavra “deserto” é a parte mais cruel dessa história, porque aquela terra, a Patagônia, não era deserto nenhum. Tinha povos indígenas morando ali havia gerações: mapuches, tehuelches, ranqueles, entre outros. O general que comandou a operação, Julio Roca, matou milhares dessas pessoas e expulsou milhares de suas próprias terras. Famílias foram separadas e distribuídas como se fossem gado, para trabalhar em fazendas de gente rica. E, para não deixar dúvida de como aquilo foi visto pelo próprio país, o rosto de Roca ainda está estampado numa nota de dinheiro argentina até hoje.

Aqui está a parte mais irônica de toda essa história, a Argentina nasceu de mãos espanholas. Para se livrar da Espanha, ela decidiu virar “europeia” por conta própria. E, para isto, fez dentro de casa a mesma coisa que a Europa tinha feito com ela lá fora: chegou, tomou a terra, e tratou quem já morava ali como se não contasse. O povo colonizado virou colonizador do próprio quintal. Aprendeu a lição tão bem, que aprendeu a repeti-la sozinho, sem precisar mais de professor.

E hoje, daqui um pouco, essa história inteira desce para dentro de um campo de futebol. De um lado, a Espanha, o país que inventou o nome Argentina achando que ia encontrar prata e nunca encontrou. Do outro lado, a Argentina, o país que passou dois séculos tentando provar que merecia ser chamado de europeu, e que hoje é uma das seleções mais fortes do mundo, em busca do quarto título, liderada por um jogador, Messi, que morou boa parte da vida adulta em Barcelona, na própria Espanha. Ou seja: até dentro do time argentino existe um pedaço de Espanha correndo atrás da bola.

Futebol não resolve conta de história. Noventa minutos não pagam quinhentos anos de dívida. Mas o símbolo está ali, na hora e no lugar certos, mesmo que ninguém tenha combinado. Um país que atravessou o mar para levar embora riqueza vai jogar contra um país que atravessou o próprio território para tirar de lá quem já vivia naquela terra antes de qualquer espanhol chegar. Os dois aprenderam, cada um do seu jeito, a arte de apagar gente. Um apagou lá fora. O outro apagou dentro de casa, e ainda chamou isso de progresso.

Quem ganhar o jogo, leva a taça para casa. Quem perder, some por mais quatro anos, até a próxima Copa perguntar de novo quem manda em quem. Já a Patagônia, essa continua esperando. Esperando alguém que suba no pódio e devolva o que foi tirado dela. Até agora, ninguém apareceu.

 

Marcus Vinicius Leite – jornalista, escritor e psicanalista.
As opiniões expressas nesta crônica são de inteira responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a posição do Portal 84 Noticias. As fontes históricas mencionadas podem ser consultadas em obras de referência sobre a colonização da América do Sul.

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