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Cada Um na Sua Razão

Discutir virou esporte nacional, só que ninguém treina para perder.

Descobri, tarde, que existem dois tipos de verdade: a minha e a errada. Todo mundo descobre isso na infância, só que finge o contrário até os setenta, quando desiste de fingir e assume o cargo de dono da razão em tempo integral. Outro dia um sujeito disse que corrigiu o filho sobre a quantidade de água que se põe no arroz. Ficou ofendido três dias, o que é muito tempo para um assunto que não tem alma. No quarto dia, ele percebeu que tinha razão, mas a essa altura, já tinha rompido relações com ele, com a mãe dele e, por extensão moral, com o arroz.

É assim que andamos. Discordar virou crime de honra. Um homem me disse recentemente que café com açúcar é uma abominação, outros, que se dizem pacíficos como uma pedra até ser chutada, quase lhe respondem com um soco. Não porque gostassem particularmente de açúcar. Gostavam, isso sim, de continuar sendo eles mesmos depois da frase dele, e parecia querer que deixasse de ser.

Reparo que ninguém mais discorda de uma ideia. As pessoas discordam de você. É uma sutileza enorme, do tamanho de um oceano, e ninguém percebe. Você diz “acho que vai chover” e o outro entende “você é um imbecil e sua família também“. Daí vem a resposta, que nunca é sobre chuva.

Isso tem nome bonito, dialética, tese contra antítese até nascer uma terceira coisa mais sensata que as duas primeiras. Só que ninguém quer a terceira coisa. Todo mundo quer ganhar. E ganhar, hoje em dia, significa fazer o outro calar a boca, não convencê-lo. São métodos diferentes com o mesmo verbo.

Tem um velho conto de rabino que gosto de repetir, e repito mal, porque é minha função estragar as boas histórias dos outros. Dois homens discutem. Um diz uma coisa, o rabino diz “você tem razão“. O outro diz o contrário, o rabino diz “você também tem razão“. Um terceiro reclama: os dois não podem ter razão ao mesmo tempo. E o rabino, sem se abalar: “você também tem razão“.

A graça do conto é que ele não resolve nada. Só mostra que opinião não é sentença de tribunal, é ponto de partida. A gente é que insiste em tratá-la como coisa definitiva, gravada em pedra, com direito a monumento e cerca em volta.

O motorista que fecha você no trânsito não sabe seu nome. Não sabe se você tem filhos, se torce para algum time, se prefere água com ou sem gás. Ele simplesmente foi mal-educado, o que é bem menos pessoal do que parece, porque ele é mal-educado com todo mundo, inclusive com a própria sogra. Mas a gente sai atrás dele buzinando como se tivesse sido escolhido a dedo para aquela humilhação. Não fomos escolhidos. Fomos apenas o carro que estava na frente.

Sei lá se ainda dá tempo de reaprender a discordar sem declarar guerra. Talvez baste lembrar que uma opinião contrária não é uma faca, é só uma opinião contrária, coisa fraca, que se derruba com outra opinião, não com gritaria. Mas confesse: se alguém disser de novo que café com açúcar é abominação, você não promete nada. Somos humanos, e aprendemos, que somos bicho que discute até de arroz.

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