Nunca, porém, descobriu o tamanho de um pênalti. Essa medida não consta em nenhum artigo e é uma pena, porque seria a mais exata de todas.
A lei não obriga empresa nenhuma a liberar funcionário para ver jogo da Seleção. Está certo: lei não foi feita para entender emoção, foi feita para evitar processo. Justiça e felicidade raramente moram no mesmo parágrafo. São, no máximo, ex-casal que dividiu os móveis e ainda brigam pelo sofá.
Fica “a critério da empresa”, dizem por aí. Frase enganosa essa. Toda vez que algo fica a critério da empresa, descobre-se depois que a empresa tem muito mais critério do que coração. Há as iluminadas: flexibilizam horário, montam telão, deixam o expediente respirar como quem solta o cinto depois do almoço. Não por bondade. Essa benece empresarial é manchete rara, mas porque entenderam algo elementar: gente não trabalha só por salário, trabalha também por pertencimento, essa moeda que nenhum RH sabe cotar.
Outras preferem a ortodoxia: expediente normal, quem quiser que acompanhe o placar pelo celular, discretamente, como quem consulta a cotação do dólardurante um velório. Ideia engenhosa, fundada na crença de que um ser humano consegue redigir e-mail enquanto o Brasil cobra pênalti decisivo. Quem acredita nisso acredita também em Papai Noel, unicórnio e reunião produtiva depois do almoço de sexta-feira.
Existe o banco de horas, o purgatório contábil onde até alegria entra em débito. O sujeito assiste ao gol hoje, paga a emoção na terça. O gol sai aos quarenta e dois do segundo tempo; a fatura, às oito da manhã, com juros de produtividade.
Os especialistas recomendam, com razão, que tudo seja escrito. Papel serve para que a memória não vire testemunha contra ninguém. Sem acordo prévio, quem desaparece para ver o jogo corre o risco de descobrir que a Seleção perdeu de um lado e ele perdeu o emprego do outro, sendo a justa causa, invariavelmente, menos emocionante que qualquer prorrogação.
Mas a discussão nunca foi jurídica. É psicanalítica, e isso explica por que a CLT nunca vai resolver. Quem manda voltar ao trabalho trinta minutos depois de uma eliminação nos pênaltis acredita, com a inocência de quem nunca fez terapia, que o sofrimento terminou quando o juiz apitou o fim de jogo. Não percebe que o aparelho psíquico não segue cronômetro de árbitro.
O corpo comparece à reunião pontualmente, treinado havia gerações para comparecer; a alma ainda está ali, repetindo a cena, perguntando por que a bola escolheu a trave em vez da rede, como quem revisita, em loop, o exato instante em que tudo poderia ter sido diferente. Freud chamava isso de compulsão à repetição. O RH chama de “falta de comprometimento”.
É curioso que essas mesmas empresas adorem falar em propósito, cultura organizacional, engajamento, vocabulário que cabe perfeitamente num slide e muito mal numa segunda-feira de ressaca emocional. Fazem pesquisa de clima como quem faz inventário de estoque, sem perceber que pertencimento não se fabrica em workshop, da mesma forma que afeto não se resolve em ata de reunião.
Durkheim escreveu sobre rituais religiosos australianos. Se tivesse conhecido o Brasil em ano de Copa, talvez tivesse acrescentado uma nota de rodapé: às vezes uma camisa amarela reúne mais fiéis do que muito altar e exige, das torcedoras e torcedores, uma fé infinitamente mais sofrida.
Não se trata de idolatrar futebol. Seria ingenuidade, e depois de certa idade ingenuidade começa a parecer mau gosto. O futebol aliena, movimenta fortuna, fabrica heroi descartável, distrai nação de perguntas mais incômodas. Tudo isso é verdade. E também é verdade que pouca coisa ainda faz um país tão dividido respirar, por noventa minutos, no mesmo compasso.
A empresa que ignora isso pode conhecer a CLT de cabo a rabo. O problema é que permanece analfabeta na única matéria que nunca caiu em concurso público: gente. Administrar pessoas sem entender pessoas é como escalar contador para narrar final de Copa : ele sabe fazer as contas, só não entende por que ninguém está prestando atenção nelas.

