Há uma lei que dispensa código porque dispensa até mesmo a consciência de quem a cumpre e que opera com a pontualidade dos fenômenos naturais mais chatos: onde cabe plateia, nasce maluco.
O mecanismo é esse, simples como todas as verdades que a gente prefere não escrever: o palco não atrai o desequilíbrio, ele o fabrica. Pessoas perfeitamente funcionais, que pagam contas em dia, tratam bem o cachorro, nunca faltaram a um velório, descobrem diante de uma audiência uma versão de si mesmas que não sabiam estar em estoque.
Não é fenômeno novo. É estrutural. Quase geológico.
Os romanos tinham isso com precisão clínica: panem et circenses, pão e circo, e dentro do circo havia os gladiadores, os leões, os bobos de corte, os oradores histéricos no Fórum: todo um ecossistema da loucura performática sustentado pela necessidade coletiva de ver alguém perder o controle com elegância, ou sem ela. A distinção, aliás, importava menos do que se supõe.
O que importava era o espetáculo. O calor humano da desrazão alheia.
Porque há nisso uma função profundamente consoladora. Quando se assiste a alguém desvariando publicamente, há um alívio vicário que a psicanálise conhece bem e que o senso comum trata com o constrangimento habitual que reserva às verdades inconvenientes. O maluco no palco externaliza aquilo que o espectador mantém sob controle com esforço considerável. É uma catarse que não precisa se confessar como tal. Você ri, aplaude, compartilha o vídeo e vai dormir ligeiramente mais leve.
Freud teria cobrado por isso. E caro.
O problema é que o palco foi democratizado. Isso soa como boa notícia e, em teoria, era. A ideia iluminista de que todos deveriam ter acesso à expressão pública carregava uma dignidade genuína: a voz do camponês tanto quanto a do marquês, a observação da mulher do mercado tanto quanto a do acadêmico de cátedra. Bonito assim, na abstração.
Na prática, o que a democratização do palco produziu foi uma inflação dramática da oferta de loucura pública sem nenhum mecanismo correspondente de controle de qualidade. Não que houvesse antes um controle propriamente dito, mas havia, pelo menos, certo custo de entrada. Precisava-se de um mínimo de capital social, um título, um cargo, uma congregação, para delirar com audiência garantida.
Hoje o custo de entrada é zero. Literalmente.
E o que acontece quando o custo de entrada é zero e a recompensa é imediata e mensurável em tempo real? Acontece o que qualquer economista mediano poderia prever e qualquer pessoa sensata temia: superprodução. Há mais palcos do que mãos para aplaudi-los, mais malabaristas do que olhos para acompanhar as bolas no ar, mais profecias do que dias úteis para que se cumpram.
O hospício, como dizia o velho aforismo, não falta. Mas agora ele tem wi-fi.
O que antes ficava contido na praça agora se replica infinitamente, viaja continentes em segundos, encontra os seus semelhantes com uma eficiência que nenhum movimento político do século XX conseguiu imaginar. A loucura performática descobriu o efeito de rede. E o efeito de rede, como se sabe, não distingue conteúdo: amplifica o que gera reação, independentemente de qual reação seja. Raiva funciona melhor do que alegria. Indignação supera admiração. E o espanto é o combustível mais eficiente que existe.
Os algoritmos não inventaram isso. Só otimizaram o que já estava lá, embutido na nossa biologia de primatas sociais que precisam saber quem está perturbando a ordem para decidir se correm ou ficam assistindo.
Quase sempre ficamos assistindo.
O que me intriga é onde termina a loucura genuína e começa a loucura calculada. Essa fronteira sempre foi porosa. Os grandes agitadores históricos raramente eram apenas um ou outro: Mussolini era um ator extraordinário que às vezes acreditava no próprio papel; Hitler tinha a convicção dos paranóicos mas o timing dos comediantes; os televangelistas americanos que choravam em câmera nos anos oitenta provavelmente sentiam algo, mesmo que esse algo fosse principalmente a aproximação do depósito bancário.
A performance e a crença se alimentam mutuamente. Você finge com suficiente convicção e começa a acreditar. Você acredita com suficiente intensidade e a performance melhora. É um circuito fechado que pode girar por décadas.
E a plateia? A plateia raramente quer saber. A plateia quer o espetáculo.
Essa é, talvez, a única constante de tudo isso. Não os malabaristas. A constante é a necessidade do espetáculo. A vontade coletiva de que alguém ultrapasse os limites que os outros mantêm. Que diga o que os outros calam. Que faça o que os outros inibem.
Não importa muito o que seja. Desde que seja intenso.
Então, enquanto houver essa necessidade haverá quem a atenda. Com crença, sem crença, com talento, sem talento, com consequências, sem consequências, ou com consequências que só aparecem depois, quando o palco já foi desmontado e a plateia já foi pra casa e o outrora maluco está sozinho no quarto tentando lembrar como era ser uma pessoa comum.
O hospício não falta porque o palco não falta.
E o palco não falta porque nós não faltamos, nós, a plateia, os que ficam, os que assistem, os que compartilham o vídeo e vão dormir ligeiramente mais leves.
A cumplicidade, como sempre, é distribuída.

