Acordamos. O teto nos encara antes que a gente o encare. Essa é a primeira injustiça do dia: o teto chegou primeiro. Kierkegaard disse que o desespero é a doença mortal. Freud, mais discreto, chamou a mesma coisa de outros nomes e cobrou por sessão. Os dois descreviam o mesmo bicho: o sujeito que se levanta, escova os dentes, veste a gravata da própria personalidade e sai por aí fingindo que aquilo é ele.
Deixe-me te apresentar a Soren Kierkegaard, por gentileza. Foi o único filósofo que conseguiu ficar noivo, terminar o relacionamento, e ainda assim escrever mais sobre aquela mulher do que qualquer marido escreve sobre a própria esposa em quarenta anos de casamento. Regine Olsen nunca soube da sorte, ou do azar, de ter inspirado meio Ocidente a se sentir mal consigo mesmo.
Nasceu rico, o que já é suspeito em qualquer filósofo que depois vai pregar o sofrimento como caminho para a verdade. Riqueza costuma produzir epicuristas, não Kierkegaard: produziu um sujeito magro, dispéptico, com a coluna torta e a alma mais torta ainda, capaz de escrever seiscentas páginas para explicar por que a angústia é a prova de que Deus existe, mesmo quando Deus, no caso dele, parecia estar sempre ocupado com outra coisa.
Publicava sob pseudônimo, o que no fundo é a atitude mais honesta que um pensador pode ter: admitir que precisa de várias pessoas dentro de si mesmo só para discordar em paz. Enquanto Hegel construía sistemas do tamanho de catedrais, Kierkegaard ficava do lado de fora jogando pedra nas vidraças. Dizia que o sistema explicava tudo, menos o sujeito que precisava viver dentro dele.
Morreu aos quarenta e dois anos, desprezado pelos jornais, ridicularizado por caricaturistas dinamarqueses que faziam dele piada de calça curta e nariz grande. A ironia é generosa: o homem que mais escreveu sobre desespero morreu sem saber que se tornaria, um século depois, item obrigatório de estante de intelectual. Sartre e Camus vieram depois recolher os cacos e assinar embaixo.
Kierkegaard foi o sujeito que teve a coragem de dizer, antes de qualquer divã existir, que o ser humano é a única criatura capaz de se angustiar por não saber quem é. Os outros bichos têm instinto. Nós temos crise.
Isso explica por que tanta gente bem-sucedida parece um apartamento decorado: lindo, iluminado, ninguém mora ali de verdade. O sujeito enche a sala de troféus e esquece de perguntar quem é que vai dormir naquele quarto à noite.
A angústia como assinatura
Toda análise séria começa com uma confissão desagradável: eu não sei o que eu quero, só sei imitar quem parece saber. A publicidade vende essa imitação em prestações. Compre isto e serás completo, diz o outdoor. Mentira histórica: ninguém jamais ficou completo comprando nada, exceto o dono da loja.
O amor romântico é o Golpe do Bilhete Premiado mais bem-sucedido da civilização: alguém aparece, promete redenção, e nós assinamos o contrato sem ler a letra miúda, que diz “este produto não cura vazio existencial, apenas o distrai por um período limitado”. Depois vem a discussão sobre quem deixou a louça na pia, e ali, meus amigos, está o verdadeiro divã.
Lacan diria que desejamos o desejo do outro. Eu diria que desejamos qualquer coisa que nos poupe de desejar sozinhos, porque desejar sozinho dá vertigem, e vertigem, convenhamos, não cabe no currículo do LinkedIn.
O diagnóstico que ninguém quer receber
O paciente mais difícil não é o que sofre, é o que sofre bem vestido. Aquele que sorri na horas certa, cumprimenta educado, e vai desmoronando por dentro com a discrição de um prédio condenado que ainda recebe visitas.
A neurose contemporânea não grita. Ela agenda. Marca reunião, cumpre prazo, posta foto de pôr do sol com a legenda “gratidão”, e à noite fica olhando o teto que chegou primeiro.
Talvez o desespero, no fim, não seja falha de caráter nem desequilíbrio químico, mas apenas o preço de ter nascido consciente numa espécie que preferiria não ter sido. Os bichos não se perguntam se a vida faz sentido. Eles simplesmente vivem, o que já é uma resposta bem mais elegante que a nossa.
Resta a pergunta que nem toda terapia resolve, nem todo filósofo dinamarquês resolveu, nem eu vou resolver aqui, porque crônica boa não fecha, só para: e você, já reparou que fala sozinho com o teto?

