Colunas e BlogsA infância como armadilha

A infância como armadilha

Ou: o que uma mulher de 37 anos nos ensina sobre o peso de uma história bem contada

Tem uma frase que Renata Magalhães, nutricionista, 52 anos, disse à reportagem e que não sai da cabeça: “A gente não olhava para a mulher, mas para a história que ela contava.”

Disse isso para explicar como foi enganada por um mês inteiro por uma mulher adulta que fingia ser uma criança de doze anos com autismo. Mas poderia ter dito para explicar metade das coisas que acontecem neste país e talvez no gênero humano de modo geral.

O caso de Amanda Maria Souza de Oliveira, 37 anos, presa em Joinville na semana passada, é daqueles que a imprensa chama de “inacreditável” mas que, se você parar para pensar, é absolutamente crível até o tutano, até os ossos, até aquele fundo escuro onde a psicologia e a sociologia não se entendem mais e você começa a suspeitar que a realidade é mais barroca do que qualquer teoria suporta.

Amanda não é um caso isolado. É uma série. Rio de Janeiro, São Paulo, Minas Gerais, Rio Grande do Sul, Goiás, Santa Catarina. Em cada estado, um nome diferente: Duda, Gabriele, talvez outros que a reportagem ainda não encontrou. O mesmo enredo, com variações mínimas, como uma peça de teatro que muda de cidade mas mantém o mesmo texto decorado. Chupeta. Mamadeira. Voz afinada. Crise de pânico à noite. E a história do pai bruxo que enfiava agulhas no corpo da criança: mais de duzentas, constatadas em raio-X, saindo até pela boca.

Aqui é onde a maioria das pessoas, ao ler a notícia, decide reagir com escárnio. “Como pode alguém acreditar nisso?” A pergunta, formulada dessa forma, revela mais sobre quem a faz do que sobre quem foi enganado. Porque a resposta honesta é: acredita quem tem o hábito de acreditar.

Acredita quem construiu, ao longo de anos, a disposição de acolher. Acredita quem trabalha com crianças abusadas, com projetos sociais, com histórias de violência que são, na maior parte das vezes, verdadeiras e absurdas, e barrocas, e clinicamente improváveis para quem as ouve de fora.

Viviane Henriques dirigia um projeto social chamado “Mãos que abençoam com amor”. Renata cuidava de crianças com autismo. Quando Amanda apareceu na página do projeto, com sua história de fuga do Ceará, de um pai que a prostituía, de caronas com caminhoneiros até a Baixada Fluminense, as duas mulheres não foram ingênuas. Foram, exatamente, o que anos de prática humanitária as treinou para ser: receptivas.

O trágico não é que a compaixão falhou. É que a compaixão funcionou perfeitamente. Ela fez exatamente o que deveria fazer. E foi usada como instrumento.

Isso é o que a polícia descobriu no histórico de buscas do celular de Amanda: “como um autista se comporta”“como fazer desenhos como se fosse uma vítima de abuso”. A mulher estudou. Pesquisou. Preparou sua personagem com a dedicação de uma atriz que ensaia antes da estreia, só que o palco era o apartamento alugado e mobiliado por suas vítimas, e o público era formado por pessoas que a amavam.

É difícil não pensar em Winnicott aqui ou em qualquer teórico do vínculo que já tentou explicar por que certas pessoas escolhem a regressão como linguagem. Amanda pedia mamadeira. Pedia chupeta. Exigia presença constante, ameaçava se machucar se Renata saísse. Isso não é só fraude. Isso é uma encenação sofisticada de abandono e necessidade: o teatro da infância que nunca foi, talvez, ou o teatro que ela descobriu ser o mais eficiente para mover adultos. Não sabemos. O exame de sanidade mental pedido pela defesa poderá ou não elucidar algo. Mas o delegado responsável pelo caso em Santa Catarina foi enfático: ela se mostrou “racional, colaborativa, com raciocínio bastante lógico”. Sabe o que faz. Reconhece que é errado. E faz de novo.

Quatorze meses em Joinville. Um mês no Rio. Outros episódios em outros estados. Em Santa Catarina, convenceu a família a não matriculá-la na escola: o pai abusador saberia onde ela estava. Convenceu a não levar ao conselho tutelar. Foi criando, metodicamente, o isolamento que garantia a continuidade da fraude. O delegado Rodrigo Bueno Gusso disse que ela “conseguiu sequestrar emocionalmente a família”. A expressão é exata. O sequestro emocional é uma operação de longa duração: não assalta, não arromba. Entra pela porta da frente, com uma história que dói de tão verdadeira, e vai instalando, aos poucos, a dependência afetiva que torna a saída impossível.

A farsa em Santa Catarina foi descoberta por uma tia, alguém que não convivia todo dia, que olhava de fora, que “nunca acreditou nessa história”. Pesquisou na internet. Encontrou o caso do Rio de Janeiro. Juntou os pontos. Há nisso uma ironia que não é pequena: a pessoa que salvou a família do engano foi aquela que não estava suficientemente próxima para ser capturada pelo afeto. A distância, aqui, foi uma forma de clareza. E a proximidade foi o que cegou.

Renata diz sentir “impotência” ao ver novas pessoas passando pelo mesmo golpe. E diz, com uma generosidade que impressiona: “Acredito que ela tenha algum tipo de transtorno, que pode ser perigoso. Não é só prender, ela precisa de tratamento.” Isso dito por alguém que teve a saúde mental destruída, a vida financeira arruinada, afastada dos próprios filhos. Existe uma grandeza nessa fala que o noticiário não sabe bem onde colocar.

Viviane, por sua vez, disse que não vai parar de querer ajudar. As pessoas disseram “agora vai parar de ser boba”. Ela disse que não. Isso também impressiona, mas de outra forma. Não como ingenuidade. Como teimosia moral. Como recusa em deixar que uma fraude redefina a regra geral. Porque o fato de que Amanda existiu não significa que todas as Dudas e Gabrieles do mundo são Amanda. Significa apenas que o mundo é complicado, e que a compaixão tem custos, e que isso não é razão suficiente para aboli-la.

Há um detalhe no caso que fica martelando: as agulhas. Mais de duzentas agulhas no corpo. A história do pai bruxo. Isso é absurdo demais para ser só estratégia ou talvez seja exatamente porque é, porque Amanda entendeu que o absurdo extremo paralisa o ceticismo. Ninguém consegue inventar isso, pensa quem ouve. Portanto é verdade. O raciocínio é compreensível. E errado.

Somos uma espécie mal equipada para distinguir sofrimento real de sofrimento encenado quando a encenação é suficientemente elaborada. Os marcadores que usamos: choro, tremor, inconsistência na narrativa, comportamento regressivo, podem ser produzidos. Não facilmente, não por todos, mas podem. E quando são produzidos por alguém que estudou como fazê-los, os nossos mecanismos de detecção falham. Não por burrice. Por limitação estrutural.

O que é perturbador no caso de Amanda não é a mentira em si. É a escala. É a repetição. É o fato de que ela atravessou seis estados, enganou famílias inteiras, conviveu por meses com pessoas que a amavam e continuou. Isso não é um golpe. É um modo de existir. E a Justiça, como a própria delegada do Rio de Janeiro reconheceu, não sabe muito bem o que fazer com isso, porque estelionato sem violência física não tem peso suficiente para manter alguém preso, e o exame de sanidade mental pode ou não encontrar algo que justifique outro caminho.

Fica a sensação incômoda de que o sistema está preparado para lidar com criminosos que fazem sentido: que roubam por dinheiro, que agridem por ódio, que fraudam por ganância. Amanda não se enquadra bem em nenhuma dessas categorias. Ela queria ser uma criança. Por quê, não sabemos. Talvez o exame responda. Talvez não responda. Talvez a resposta não caiba em nenhum código.

Renata, Viviane, e a família de Joinville foram vítimas. Mas foram vítimas de algo que começa antes do crime: começa na incapacidade coletiva de suspeitar de quem parece precisar de nós. Isso não é uma falha que se corrige com desconfiança generalizada. É uma tensão que a vida social nunca vai resolver. E talvez seja melhor assim.

Últimas