ArtigosDe meme a candidato: o voto de fama

De meme a candidato: o voto de fama

Celebridades viram ativo eleitoral, e a popularidade passa a valer como capital político na disputa por cadeiras no Congresso

Antes era um meme. Este ano, concorre a deputado federal. A frase, que poderia resumir uma piada de internet, virou manchete eleitoral.

A Menina da Bota, que ficou conhecida dançando de bota e jaqueta jeans em um clipe que viralizou, pede votos em Minas Gerais. Luís Fabiano, o Fabuloso, disputa uma vaga de deputado federal por São Paulo. Edmundo, o Animal, também entrou na corrida paulista. Vanderlei Luxemburgo tenta o Senado pelo Tocantins. Rachel Sheherazade e Silvia Abravanel estão entre os nomes conhecidos da televisão que decidiram disputar uma eleição.

A lista parece saída de um programa de auditório, mas não é. É a eleição de 2026. E a pergunta mais interessante não seja por que essas pessoas resolveram se candidatar. É por que os partidos resolveram convidá-las. Existe uma diferença entre alguém famoso decidir entrar na política e um sistema partidário descobrir que a fama pode ser útil para ganhar eleições.

A fama como capital

Durante boa parte da história eleitoral brasileira, um candidato construía sua força política de outro modo. Militava. Percorria bairros. Participava de associações, sindicatos, movimentos sociais e diretórios partidários. Disputava eleição municipal. Construía uma rede. A televisão alterou parte desse jogo. O futebol também. As redes sociais aceleraram tudo.

Hoje, um candidato pode chegar à campanha trazendo consigo aquilo que antes levava anos para construir: uma audiência própria. Ela não garante votos, evidentemente. Seguidor não é eleitor. Curtida não é sufrágio. Viralização não é mandato. Mas atenção é um recurso político. E os partidos sabem disso.

Uma celebridade começa a campanha com algo que um candidato desconhecido precisa gastar tempo e dinheiro para conquistar: reconhecimento. É por isso que a fama pode funcionar como capital eleitoral. Não porque torne alguém automaticamente preparado para legislar, mas porque reduz uma das dificuldades mais antigas de qualquer campanha: fazer o eleitor saber que você existe.

A matemática ajuda

A lógica fica mais clara quando entra a matemática eleitoral. A eleição para deputado federal é proporcional. As cadeiras da Câmara são distribuídas de acordo com a votação obtida pelos partidos e federações, obedecendo às regras do sistema eleitoral. Isso significa que o voto em um candidato também participa da conta da legenda. É daí que vem a expressão “puxador de votos”.

Um candidato com votação muito alta pode contribuir para que seu partido ou federação conquiste mais cadeiras e, consequentemente, para a eleição de outros nomes da mesma chapa. O exemplo mais famoso é Tiririca. Em 2010, o humorista teve mais de 1,3 milhão de votos em São Paulo. Foi o deputado federal mais votado daquele pleito e seu desempenho ajudou o partido a conquistar cadeiras.

O chamado “Efeito Tiririca” tornou visível uma lógica que não nasceu com ele, mas ganhou enorme repercussão: um candidato pode ter valor para uma legenda não apenas pelo mandato que eventualmente exercerá, mas pela quantidade de votos que consegue colocar dentro da conta partidária. É aqui que a fama começa a deixar de ser apenas fama. Ela pode virar estratégia.

O candidato já chega com o público

Um jogador famoso não precisa explicar ao eleitor quem é. Um apresentador popular não precisa gastar meses construindo reconhecimento. Um influenciador não precisa começar do zero para reunir milhares de pessoas diante de uma mensagem. O público já está lá. A campanha precisa apenas descobrir se consegue transformar atenção em voto.

É uma operação menos simples do que parece. Seguidores podem rejeitar a candidatura. Parte da audiência pode estar espalhada por diferentes estados. Pessoas que acompanham um artista por música, humor ou esporte podem não ter nenhuma intenção de votar nele.

Mas existe uma vantagem objetiva: o candidato já sabe falar com uma multidão sem precisar primeiro conquistar a multidão. A política tradicional sempre dependeu de comunicação. A novidade é que agora alguns candidatos chegam à eleição com sua própria infraestrutura de comunicação.

Weber e uma pergunta incômoda

Em 1919, Max Weber discutiu a política como vocação e distinguiu, entre outras coisas, aqueles que vivem “para” a política daqueles que vivem “da” política. A distinção não serve para separar automaticamente os virtuosos dos oportunistas. Weber estava discutindo a relação entre vocação, poder, profissão e os interesses envolvidos na atividade política.

Mas há uma pergunta de Weber que continua desconfortavelmente atual: o que essa pessoa defendia antes de existir uma vaga em disputa? Não é preciso exigir de todo candidato uma carreira de vinte anos. Um cidadão pode descobrir uma vocação política aos 40, aos 50 ou aos 60 anos. Pode ser um artista, jogador, professor, empresário, influenciador ou trabalhador sem qualquer experiência partidária e ainda assim ser um excelente parlamentar.

O problema começa quando a notoriedade passa a funcionar como substituta da trajetória. Porque ser conhecido é uma habilidade. Representar milhões de pessoas é outra.

Quando o algoritmo entra na urna

A política contemporânea tem uma característica que Weber não poderia prever: a capacidade de medir a atenção em tempo real. Visualizações. Seguidores. Compartilhamentos. Alcance. Engajamento. Tudo pode ser contado. A audiência deixou de ser apenas uma medida de popularidade e passou a ser um dado de campanha.

Isso muda o recrutamento. Um partido que procura candidatos não precisa perguntar apenas quem tem experiência política. Pode perguntar quem já possui público.

A lógica é quase empresarial: se construir uma audiência custa anos, por que não recrutar alguém que já chega com ela pronta? A pergunta democrática, porém, é outra: o que acontece quando o principal ativo de um candidato deixa de ser sua trajetória política e passa a ser sua capacidade de chamar atenção?

O problema começa depois da eleição

Existe uma parte dessa história que quase desaparece durante a campanha. O dia seguinte. A câmera continua ligada, mas o trabalho muda. O parlamentar precisa entender o funcionamento da Câmara, participar de comissões, analisar projetos, negociar posições, acompanhar orçamento, discutir emendas, construir equipe e lidar com as regras e interesses de seu partido.

É aí que a fama encontra seu limite. Um influenciador pode dominar uma plataforma e não conhecer o regimento da Câmara. Um jogador pode ter sido campeão brasileiro e nunca ter participado de uma discussão sobre orçamento público. Um apresentador pode saber conduzir uma entrevista durante duas horas e ainda precisar aprender como uma comissão parlamentar funciona. Nada disso significa que será um mau deputado. Significa apenas que as competências que produziram a fama não são necessariamente as mesmas que produzem um bom mandato.

E há outro detalhe. No Congresso, ninguém governa sozinho. Partidos têm líderes. Bancadas têm orientações. Federações negociam posições. Votações envolvem acordos e interesses que raramente cabem num vídeo de 30 segundos. O eleitor pode escolher uma pessoa que conhece há anos da televisão. Depois da eleição, essa pessoa terá de negociar com parlamentares que o eleitor talvez nunca tenha visto.

A fama pode ter aberto a porta. O mandato começa quando a porta fecha.

O novo mercado da atenção

Não há nada de ilegal em uma celebridade se candidatar. Nem há nada necessariamente ruim em um famoso ocupar uma cadeira no Congresso. A democracia não exige que o candidato seja um político profissional. E experiência política também não é sinônimo de competência. A questão é mais incômoda. Qual é o critério que está sendo usado para escolher quem merece ser apresentado como representante? Se a resposta for apenas “porque é conhecido”, alguma coisa se perdeu no caminho. Porque o eleitor pode reconhecer perfeitamente um rosto sem conhecer uma única proposta daquele candidato. Pode saber o apelido de um jogador e não saber como ele pretende votar numa reforma tributária. Pode acompanhar diariamente um influenciador e nunca ter ouvido uma posição sua sobre orçamento público. Pode saber tudo sobre a vida de um artista e absolutamente nada sobre o que ele pensa sobre o funcionamento do Estado.

É aí que a economia da atenção encontra a democracia. A fama não é o problema. O problema é transformar fama em currículo.

A urna não tem algoritmo

Talvez o fenômeno mais interessante dessa eleição não seja a quantidade de famosos que decidiu entrar na política. Seja o fato de que os partidos parecem cada vez mais interessados em pessoas que já chegam com público. A lógica é compreensível. Audiência pode virar voto. Voto pode virar cadeira. Cadeira vira poder. Mas existe um salto entre essas três coisas que a campanha eleitoral costuma esconder. Uma pessoa pode ser excelente em conquistar atenção. Pode ser excelente em conquistar votos.

E ainda há uma pequena diferença entre ser conhecido e saber representar. A urna eletrônica não pergunta quantos seguidores o candidato tem. O partido, ao que tudo indica, já aprendeu a perguntar. A fama, que antes era o prêmio de quem conseguia chamar atenção, agora pode ser o atalho de quem quer chegar ao poder.

É uma mudança e tanto: antes era preciso ter uma política para conquistar público. Agora, às vezes, basta ter público para conquistar uma política.Sobra ao eleitor uma pergunta que nem o algoritmo consegue responder: você está votando em alguém que conhece — ou em alguém que conhece a política?

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