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O que nos separa não é o tempo

Existe uma ilusão que carregamos da infância como se fosse um órgão: a de que amizade é presença. Que quem some é porque foi embora. Que silêncio é abandono.

A psicanálise chama de angústia de separação o que sentimos quando alguém que amamos deixa de ocupar o espaço ao nosso redor. Na infância, isso é quase literal: o amigo que não aparece na rua, que não está na escola, desaparece do mundo. Não há distinção, ainda, entre ausência e perda. O psiquismo infantil vive no tempo presente, e o presente sem o outro é luto.

Crescemos. E o luto continua, mas agora sem nome.

O que acontece com a maioria das amizades na vida adulta não é traição, nem desamor. É algo mais sutil e mais assustador: a vida passa a ter mais camadas do que o tempo permite atravessar. Trabalho, filhos, dívidas, terapia, relacionamentos que demandam energia que antes sobrava: tudo isso não extingue o afeto, mas ocupa o espaço físico onde ele vivia. E sem espaço físico, o vínculo flutua sem ancoragem. Parece frágil. Parece que vai embora.

Mas vínculo não é o mesmo que convívio.

Há uma diferença fundamental que o pensamento adulto ainda luta para assimilar: a diferença entre o que é estrutural numa relação e o que é apenas seu modo de expressão. O amor que sinto por alguém não mora nas mensagens diárias. Mora em algo anterior à linguagem, num reconhecimento, numa história comum, numa forma específica de ser visto por aquela pessoa que nenhuma outra substitui. Isso não desaparece com o silêncio. Ele hiberna.

E quando dois corpos que hibernaram se encontram novamente num corredor, num bar, numa viagem inesperada, o grito que sai não é ensaiado. “Desgraça, é você!” A obscenidade carinhosa, o abraço apertado, a provocação que só funciona porque o outro sabe exatamente o que ela significa. Isso não é nostalgia. É o vínculo acordando.

A psicóloga Liliane Seger formulou com elegância o que a teoria psicanalítica sugere há décadas: numa relação verdadeira, não existe cobrança de presença porque a presença já está incorporada. Não é preciso bater ponto porque a outra pessoa já habita um lugar interno, uma espécie de objeto permanente, para usar o conceito de Winnicott. Quando a criança aprende que a mãe continua existindo mesmo quando sai do quarto, ela dá um salto de desenvolvimento. O adulto que aprendeu que o amigo continua existindo mesmo sem responder o WhatsApp deu o mesmo salto. Só que ninguém nos ensinou que esse salto era necessário.

O que nos separa não é a distância. É a crença de que precisar de alguém e não tê-lo por perto é uma forma de perda. É a vergonha de ser o primeiro a mandar mensagem depois de meses. É o orgulho ferido que interpreta o silêncio do outro como indiferença, quando talvez seja apenas sobrevivência.

A maturidade, quando chega de verdade, traz consigo uma clareza incômoda: nem todos que estiveram no caminho eram amigos. Alguns eram companheiros de fase — pessoas com quem compartilhamos um capítulo específico da vida, e que pertencem àquele capítulo com uma inteireza que não precisa de continuação. Reconhecer isso não é cinismo. É a diferença entre saber quem está na sua história e quem está na sua vida.

E os que estão na vida,  mesmo que a quilômetros de distância, mesmo que em silêncio há um ano, sabem, de algum jeito, que quando você ligar eles vão atender. Não porque são obrigados. Porque o fio que nos une não depende de frequência para existir. Ele precisa apenas de intenção, de vez em quando, para lembrar que ainda está lá.

Talvez a pergunta não seja por que é tão difícil manter amizades na vida adulta.

Talvez a pergunta seja: o que você está confundindo com abandono que, na verdade, é só a vida acontecendo do outro lado?

 

Ps: Dedicado a todos os amigos que a distância geográfica não tirou. Aos meus,toda a acidez de um abraço apertado e a simplicidade de quem tem um par de tênis furado.

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