“Fui grosso, mas sou ariano.” Pronto. Caso encerrado. “Desapareci porque sou geminiano.” Arquive-se. “Traí porque sou sagitariano.” Nada a fazer. O réu estava sob influência dos astros.“Sou ciumento mesmo. Escorpião.” Aí já entra como agravante cósmico.
Antigamente, quando alguém fazia uma bobagem, precisava pelo menos inventar uma desculpa. Hoje não. Basta consultar a certidão de nascimento. A pessoa pisa na bola, quebra o vaso, magoa alguém e, antes que alguém pergunte alguma coisa, apresenta o mapa astral. “Não fui eu. Foi Marte.” É uma maravilha.
A gente não responde mais pelos próprios atos. Responde pelo horário em que nasceu. Há quem conheça o próprio ascendente com uma intimidade que jamais dedicou ao próprio comportamento. Sabe a posição de Vênus, a casa sete, a Lua, Mercúrio retrógrado e até o planeta que estava fazendo o quê quando a mãe entrou em trabalho de parto. Só não sabe por que trata mal quem ama.Essa parte não veio no mapa. Ou veio e ele pulou.
Existe uma diferença enorme entre usar um sistema simbólico para pensar sobre si mesmo e usá-lo para escapar de si mesmo. Uma coisa é olhar para a astrologia e perguntar: “O que isso me faz pensar?” Outra é olhar para o horóscopo e concluir: “Está explicado.” E ela é uma maneira elegante de não pensar mais.“Sou taurino. Sou teimoso.” “Sou leonino. Gosto de aparecer.” “Sou pisciano. Sou sensível.” “Sou escorpiano. Sou intenso.”
Tudo muito bonito.Só falta perguntar o que a pessoa faz com aquilo. Porque compreender uma característica não é absolver um comportamento. Se alguém diz “sou ciumento porque sou de Escorpião”, é mais interessante perguntar por que precisa ser ciumento. O signo pode até oferecer uma narrativa. Mas ela não é sentença judicial.
Freud passou uma vida ouvindo pessoas tentarem explicar por que faziam aquilo que faziam. E descobriu, entre outras coisas, que o sujeito nem sempre sabe exatamente o que está fazendo quando pensa que sabe. O inconsciente tem essa inconveniência. Ele não manda boleto, não aparece na certidão de nascimento e não aceita ser culpado por tudo. Agora ganhou concorrência. “Não fui eu. Foi meu signo.”
A astrologia virou, para alguns, uma espécie de terceirização cósmica da responsabilidade. Em vez de investigar por que escolhe sempre o mesmo tipo de relacionamento, a pessoa consulta a Vênus. Em vez de perceber que foge toda vez que alguém se aproxima, consulta o ascendente. Em vez de admitir que foi um imbecil, descobre que é ariano. É mais confortável. Os astros têm uma vantagem sobre o inconsciente: ficam longe. Milhões de quilômetros. Não respondem. Não interrompem. Não perguntam: “E você, por que fez isso?”
Essa é a diferença entre buscar sentido e procurar álibi. O primeiro abre uma pergunta. O segundo fecha a porta. E o ser humano adora uma porta fechada quando existe alguma coisa dentro do quarto que ele não quer ver. “Eu sou assim.” Essa frase merece cuidado. Porque pode significar “foi assim que aprendi a funcionar”. Pode significar “tenho dificuldade de fazer diferente”. Pode significar “ainda não entendi por que faço isso”.
Mas também pode significar simplesmente: “Não estou disposto a mudar.” É aí que o signo deixa de ser símbolo e passa a ser desculpa. E não há nada mais curioso do que alguém passar duas horas explicando a influência de Saturno sobre sua personalidade e cinco minutos depois dizer que não entende por que todos os seus relacionamentos terminam do mesmo jeito. Talvez Saturno tenha culpa. Marte também. Vênus certamente será convocada. Mercúrio, então, já virou réu habitual. Mas existe uma pequena dificuldade jurídica nesse processo: quem tomou a decisão estava aqui embaixo.
Não se trata de abandonar a astrologia. Nem de transformar todo astrólogo em inimigo da razão. Quem estuda astrologia seriamente provavelmente é o primeiro a se incomodar com essa versão de bolso em que cada signo vira um pacote de defeitos e virtudes distribuído pela maternidade. Da mesma maneira, Psicologia não é descobrir que você tratou alguém mal porque “teve problemas com o pai”.
A vida humana dá mais trabalho. Ainda bem. Seria uma tragédia se doze signos, alguns planetas e três traumas familiares fossem suficientes para explicar uma pessoa. Os consultórios poderiam fechar. Os mapas astrais fariam hora extra. Mas o que mais incomoda é outra coisa. Não é que as pessoas procurem explicações. Elas precisam delas.
O problema começa quando a explicação deixa de servir para compreender e passa a servir para não responder. “Eu sou assim.” “Meu signo é assim.” “Meu mapa é assim.” “Mercúrio está retrógrado.” Tudo pode caber em algum sistema de interpretação.
Mas nenhuma dessas frases responde à pergunta mais simples: E o que você faz com isso?
Há uma diferença entre aquilo que nos constitui e aquilo que fazemos com o que nos constitui. É bem possível que não seja possível escolher tudo. Mas continuar repetindo a mesma coisa porque “eu sou assim” é uma escolha bastante curiosa. Principalmente quando quem sofre com ela é sempre outra pessoa. Não há mal algum em ser de Escorpião, de Áries, de Gêmeos ou de qualquer outro pedaço do zodíaco. O problema é transformar o céu em álibi para aquilo que acontece na Terra. “Foi Marte.” “Foi Vênus.” “Foi meu ascendente.”
Pode até ser. Mas alguém apertou o botão. E, até onde se sabe, o dedo continua sendo seu.

