Agora todo mundo tem um diagnóstico. O sujeito é distraído: TDAH. A mulher terminou o namoro e está sofrendo: borderline. O cidadão é um tremendo filho da mãe: narcisista. O outro passa oito horas falando de dinossauros: hiperfoco. Tem umas manias estranhas: autista. Come doce depois do almoço: viciado em açúcar. E, se ainda não descobriu o transtorno, não se preocupe. Tem teste na internet.
Você responde umas perguntas, marca umas bolinhas, recebe uma porcentagem e pronto: finalmente descobriu quem você é. Freud passou a vida tentando entender o ser humano. A internet resolveu isso em sete minutos. É um avanço da ciência. Ou da pressa.
O curioso é que ninguém mais pode simplesmente ser alguma coisa. Ser distraído não pode ser distração. Tem de ser TDAH. Ser tímido precisa de uma explicação. Ser ciumento precisa de um transtorno. Ser egoísta precisa de um nome bonito. Até ser babaca ganhou tratamento psicológico.
“Narcisista.” A palavra virou uma espécie de “idiota” com pós-graduação.
E talvez uma das pequenas misérias do nosso tempo seja justamente essa: a gente gosta muito de nomear aquilo que não quer compreender. Porque nomear dá uma sensação maravilhosa de controle. “Ele é narcisista.” Pronto. Resolvido.
Não preciso mais perguntar por que ele me trata assim. Por que continuo com ele. Por que escolhi justamente esse tipo de pessoa. Por que isso me incomoda tanto. O diagnóstico do outro, às vezes, funciona como anestesia para a pergunta sobre nós mesmos. E isso vale só pra seis pessoas: Eu, tu ele(a), nós, vós e eles.
“Você precisa se esforçar mais.” “Você precisa ter foco.” “Você precisa se organizar.” Como se organização fosse uma questão de caráter e não, às vezes, uma dificuldade real que merece investigação.
Depois veio o diagnóstico (e feito por quem estudou para fazer isso, convém lembrar) e algumas coisas começaram a fazer sentido. Não tudo. E esse “não tudo” é importante. Diagnóstico não explica uma pessoa inteira. Ele pode ajudar a compreender determinadas coisas. Pode dar nome a um sofrimento. Pode orientar tratamento. Pode tirar das costas de alguém uma culpa que nunca deveria ter carregado.
Mas não deveria virar sobrenome. Uma coisa é você se reconhecer numa descrição e pensar: “Talvez isso tenha alguma coisa a ver comigo.” Outra é fazer um teste na internet e sair do outro lado dizendo: “Descobri que sou autista.” A diferença parece pequena. Não é. Uma coisa é investigar. Outra é colecionar rótulo. Diagnóstico não é horóscopo. Transtorno não é adjetivo. Muito menos xingamento. E certamente não é legenda para Reels. Tem gente que transformou o próprio diagnóstico numa espécie de explicação universal.
“Eu sou assim porque tenho isso.” E pronto. A frase parece libertadora.Às vezes é. Mas às vezes é só uma forma elegante de parar de pensar. Porque existe uma diferença enorme entre compreender uma dificuldade e transformar a dificuldade numa identidade impermeável. “Eu tenho TDAH” é uma coisa. “Eu sou assim porque tenho TDAH” é outra.
A segunda frase pode fechar uma porta que o diagnóstico deveria ajudar a abrir. A psicanálise, com todos os seus defeitos, tem pelo menos uma indelicadeza interessante: ela não deixa a pessoa em paz tão facilmente.
Você diz: “Ele é narcisista.” Ela pergunta: “E você?” Você diz: “Minha mãe é impossível.” Ela pergunta: “E por que isso ainda te afeta tanto?” Você diz: “Eu sempre escolho pessoas assim.” Ela pergunta: “Por quê?” É irritante. E justamente por isso pode ser útil. É muito mais confortável descobrir o que o outro tem do que descobrir o que a relação com o outro produz em nós.
É muito mais fácil dizer: “Ele é narcisista.” Do que admitir: “Eu continuo aqui.” Muito mais fácil dizer: “Ela é tóxica.” Do que perguntar: “Por que preciso tanto que ela me aprove?” Muito mais fácil dizer: “Eu sou assim porque tenho isso.” Do que encarar a frase mais desagradável de todas: “Eu sou assim. E preciso entender por quê.” Essa segunda frase dá trabalho. Não vem com porcentagem. Não aparece depois de quinze perguntas de múltipla escolha. Não cabe num carrossel de Instagram. E, pior: não tem resultado imediato.
O inconsciente não trabalha com teste de sete minutos. Não oferece certificado. Não manda PDF. E, infelizmente, não tem versão gratuita.

